Nos media económicos de 2026, a frase tornou-se quase uma litania: “A IA está a eliminar postos de trabalho.” Repete-se em keynotes, em relatórios anuais, em entrevistas de CEO. Mas — e aqui está a pergunta que me tirou o sossego nestas últimas semanas — será que os dados acompanham a narrativa? Ou estamos perante uma das maiores assimetrias entre o discurso e os factos na gestão contemporânea?
O teste de Nova Iorque
Desde Março de 2025, o estado de Nova Iorque exige que as empresas que comunicam despedimentos colectivos respondam a uma pergunta directa: a tecnologia foi a causa? O resultado, narrado por Gerald Kane no LinkedIn, é desconcertante: das 162 empresas questionadas, apenas uma confirmou que a IA foi a causa. Uma. Enquanto o discurso público grita revolução algorítmica, a burocracia — essa velha e aborrecida testemunha — sussurra outra coisa.
Potencial não é performance
A explicação para este desfasamento está, em parte, no título do artigo da Harvard Business Review: as empresas estão a despedir pessoas por causa do potencial da IA, não da sua performance real. Traduzindo: despedem-se hoje com base numa promessa de eficiência futura que ainda não se materializou. E um estudo com cerca de 750 CFOs, mencionado em várias análises, sugere que a IA teve “essencialmente nenhum efeito no emprego em 2025”.
O Stanford Institute for Economic Policy Research ajuda a separar o trigo do joio: as previsões apocalípticas — como a de que a IA eliminará metade dos empregos de colarinho branco — coexistem com dados de adopção que mostram mudanças reais, mas muito mais graduais e selectivas do que o imaginário colectivo sugere. O hype vende keynotes; os dados vendem factos.
O que isto significa para quem lidera
Três implicações merecem a nossa atenção.
1. A narrativa como instrumento de gestão
Se as empresas despedem “por IA” quando a causa é outra — reestruturação, pressão dos accionistas, excesso de contratação — estamos a usar a tecnologia como álibi moral. É mais confortável dizer “o mercado exige automação” do que admitir “errámos a dimensionar a estrutura”.
2. O custo de credibilidade
Cada demissão justificada pela IA que depois não se traduz nos ganhos prometidos corrói a confiança dos colaboradores na transformação digital como um todo. E criamos, mais uma vez, terreno fértil para o silêncio e o cinismo.
3. A pergunta que os líderes não fazem
Onde estão as auditorias honestas de retorno? Quantos cases de “eficiência por IA” sobreviveriam a um escrutínio rigoroso? A lista de despedimentos por IA mantida pela Programs.com é reveladora pela sua própria ambiguidade: mistura anúncios de austeridade com promessas de reinvenção, sem que ninguém verifique o que acontece seis meses depois.
Não sou um céptico da IA — quem lê este blog sabe que defendo a humanidade aumentada há anos. Mas é precisamente porque acredito no potencial da tecnologia que me incomoda o seu uso como narrativa conveniente. As organizações que confundem a história que contam com a realidade que vivem acabam, mais cedo ou mais tarde, a pagar a factura por ambas.
Se despedimos por causa do que a IA promete fazer amanhã, que outra coisa estamos dispostos a decidir hoje com base no mesmo tipo de fé?
Fontes consultadas
- Harvard Business Review (2026). Companies Are Laying Off Workers Because of AI’s Potential — Not Its Performance.
- Kane, G. (2026). New York Asked 162 Companies If AI Caused Their Layoffs. One Said Yes. LinkedIn.
- Stanford Institute for Economic Policy Research (2026). What is really happening to jobs? Separating AI hype from reality.
- Programs.com (2026). List of Companies Announcing AI-Driven Layoffs.
