Se tiver de escolher entre mais uma reunião e uma hora de trabalho imerso, qual delas verdadeiramente move a agulha?
Escrevi há alguns anos um livro chamado Flow — Full Life, Outstanding Work. Na altura, parecia quase utópico propor que a excelência profissional dependia da nossa capacidade de mergulhar numa tarefa com total absorção. Hoje, em 2026, o flow deixou de ser um luxo de criativos ou atletas de elite; tornou-se uma questão de sobrevivência organizacional.
Num estudo da McKinsey frequentemente citado, executivos em estado de fluxo registaram um aumento de produtividade de até 500%. Steven Kotler, um dos maiores especialistas mundiais no tema, tem explorado como estes períodos breves de foco profundo superam dramaticamente horas de trabalho fragmentado. A neurociência confirma: no flow, o cérebro liberta dopamina, concentra a atenção e silencia o crítico interior.
Mas aqui está o paradoxo cruel: a mesma tecnologia que promete eficiência é a principal assassina do flow. As notificações, os pings e as plataformas colaborativas, que transformam o dia numa sucessão de interrupções, tornam o estado de fluxo cada vez mais raro. E, sem fluxo, não há excelência. Apenas mediocridade produtiva.
O que me leva a uma constatação incómoda: muitas organizações estão a pagar salários para um multitasking que gera menos valor do que o trabalho profundo realizado em metade do tempo. A investigação publicada na PMC mostra que as experiências de fluxo no trabalho estão positivamente associadas ao desempenho profissional e ao envolvimento. Ou seja, não se trata apenas de bem-estar individual; trata-se também de resultados colectivos.
Numa época em que o quiet underperformance grassa e o envolvimento global paira nos 20%, talvez a intervenção mais poderosa de um líder não seja mais um evento ou uma iniciativa corporativa. Talvez seja proteger o tempo e a atenção da sua equipa como o bem mais escasso que existe.
Se tiver de escolher entre mais uma reunião e uma hora de trabalho imerso, qual delas verdadeiramente move a agulha?
Fontes consultadas
- Kotler / McKinsey. Referência ao estudo da McKinsey sobre produtividade em estado de fluxo.
- PMC / NIH. Fostering flow experiences at work: a framework and research agenda.
- SimplyPsychology. Flow State: The Psychology of Complete Immersion (2026).
- Asana. Flow state work: 6 tips to find focus and do best work.
Fotografia: Amir Abbaspoor / Pexels.
