Há poucos dias, o mundo académico e empresarial português perdeu uma das suas figuras mais emblemáticas. O Professor Luís Caeiro deixou-nos, deixando para trás um vazio imenso e um legado que perdurará por gerações. Para muitos, foi um professor brilhante; para outros, um autor de referência em liderança e gestão de pessoas; para mim, foi muito mais do que isso: foi mentor, amigo, companheiro de jornada e a razão pela qual, em 2004, me estreei como docente na Universidade Católica.

O Professor Caeiro foi, durante mais de cinco décadas, um pilar inabalável da Universidade Católica Portuguesa e da Católica-Lisbon School of Business and Economics. Como nos lembrou a própria instituição na sua comovente nota de pesar, o Luís começou a lecionar aos primeiros alunos da licenciatura em Administração de Empresas já na primeira metade da década de 1970, e completou nada menos que 53 anos de serviço ininterrupto à universidade. Cinco décadas e meia de generosidade, dedicação e profissionalismo, tanto nos programas de grau como na Formação Executiva.

Mas os números, por mais impressionantes que sejam, nunca conseguirão capturar a sua essência enquanto homem. O Professor Caeiro distinguia-se pela humanidade e bondade que trazia para tudo o que fazia. A sua curiosidade intelectual era inesgotável, a sua erudição transversal a múltiplas áreas da gestão, era inspiradora, e a dedicação aos seus alunos e participantes era tocante. Como referiu a Católica-Lisbon SBE, era "um dos professores mais impactantes na jornada de aprendizagem" de sucessivas gerações de executivos.

Licenciado em Filosofia com dissertação em Psicologia, Investigador Auxiliar da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, e Diretor-Geral de empresas de consultoria, o Professor Caeiro construiu uma carreira que ligava o rigor académico à experiência prática no mundo real. Especialista em Liderança e Gestão de Pessoas, deixou-nos várias obras de referência, incluindo três livros sobre liderança publicados apenas nos últimos três anos. As suas definições e conceitos são ainda hoje utilizados nas minhas aulas, tal é a sua qualidade e atualidade.

Mas deixem-me falar-vos do Luís que eu conheci.

Conheci o Professor Caeiro em 1999. Foi a primeira vez que estive com ele - tendo o privilégio nessa ocasião de ser seu aluno num programa de executivos - e, desde então, nunca mais deixámos de trabalhar regularmente em conjunto. Durante 27 anos de colaboração, ele foi uma referência académica, um dos meus conselheiros a nível profissional e um companheiro de jornada cuja presença era tão natural quanto indispensável.

E depois veio 2004. Lembro-me como se fosse hoje. O Professor Caeiro teve a iniciativa, a generosidade e a confiança de me chamar para dar aulas na Universidade Católica. Acreditou em mim quando eu ainda estava a descobrir o professor que poderia ser. Não foi apenas um convite profissional; foi um ato de confiança transformador. Foi o ponto de viragem que definiu a minha trajetória como docente e, em grande medida, a minha vida.

Para além de uma referência profissional, o Luís era um bom amigo. Conversávamos regularmente, partilhávamos ideias, debatíamos o mundo. Ele tinha sempre uma palavra sábia pronta a oferecer, uma observação certeira que iluminava o problema de um ângulo inesperado, um pensamento profundo que nos fazia parar e refletir. E, talvez uma das suas características mais espetaculares, era o seu humor subtil e inesperado - aquele tipo de humor fino, intelectual, que surgia quando menos esperávamos e que nos desarmava completamente, provocando gargalhadas sinceras no meio de discussões sérias.

A realidade é que, em cada módulo que preparo, em cada definição que apresento, em cada sala de aula em que entro, sinto a sua presença. O Luís Caeiro está em tudo. Está nos conceitos, está na forma de pensar, está na exigência intelectual, está na bondade com que tratamos os participantes. Ele construiu não apenas uma carreira, mas uma escola de pensamento e uma forma de ser professor.

A área da liderança em Portugal está mais pobre. A Católica está mais pobre. E eu estou mais pobre. Perdi um mentor que me abriu portas, um amigo que me fez rir e refletir, um gigante cujo exemplo me serviu de inspiração durante mais de um quarto de século.

O Luís deixa-nos um legado imenso: o conhecimento que partilhou, os livros que escreveu, os líderes que ajudou a moldar, e o exemplo de competência, generosidade e compromisso com a educação. Mas, para mim, deixa algo ainda mais precioso: a memória de quem acreditou em mim quando nem eu próprio acreditava totalmente.

Senhor Professor, obrigado. Por 1999. Por 2004. Por todas as conversas. Por todas as palavras sábias. Pelas observações certeiras. Pelos pensamentos profundos. Pelas gargalhadas inesperadas. Por ter sido, simplesmente, Luís Caeiro. E pela Ana Paula, a última boa surpresa que me proporcionou.

O seu legado vive em todos nós que tivemos o privilégio de o conhecer, aprender consigo e estimá-lo.