Surge este post de uma reflexão que tenho feito nos últimos meses sobre o tipo de pessoas que nos rodeiam e a forma como interagem connosco, seja em contexto profissional seja em contexto pessoal. 

Na verdade, as nossas relações interpessoais são talvez um dos aspetos que mais impactam na nossa qualidade de vida e no nosso bem-estar, refletindo-se na nossa produtividade, na nossa capacidade de desenvolver relações nutritivas e na nossa própria jornada de aprendizagem.

Importa assim saber reconhecer quem nos rodeia para sabermos, com sabedoria, escolher com quem fazemos a nossa jornada (se tivermos opção de escolha) bem como escolher como lidar com quem nos rodeia (quando não o podemos escolher de todo!).

As vivências de anos recentes foram suficientemente férteis em exemplos ilustrativos da enorme diversidade de pessoas que podemos encontrar, permitindo um processo de reflexão e auto-descoberta pelo qual estou profundamente grato, e que hoje partilho convosco.

Liberdade e verdade

Ao observar as pessoas com quem interagi e o seu comportamento recorrente, encontrei padrões razoavelmente consistentes (mas apenas baseados na minha experiência pessoal), que me levaram depois a estudar um pouco o que poderia estar por detrás desses padrões.

Concluí assim que há dois fatores que influenciam claramente estes padrões: 

  • respeito pela liberdade dos outros (o quanto uma pessoa permite que os outros expressem as suas opiniões, desejos e autonomia sem tentar controlá-los ou impô-los;
  •  a nossa valorização da verdade nas relações com os outros (compromisso da pessoa com a honestidade e a transparência nos relacionamentos, evitando mentiras, manipulação ou distorção da realidade – também lhe poderíamos chamar autenticidade).

Podemos cruzar estes dois fatores no contexto do relacionamento interpessoal para identificar quatro possíveis estilos de interação, facilmente identificáveis no comportamento das pessoas que nos rodeiam:

  1. Virtuoso (Alto respeito pela liberdade e pela verdade)
    • Características: Honestidade combinada com empatia e respeito pela autonomia do outro. A pessoa valoriza a verdade, mas comunica de forma respeitosa, sem impor suas opiniões ou desrespeitar os limites dos outros;
    • Exemplos: Amigos que partilham críticas construtivas com tacto, casais  que praticam comunicação não violenta e chefes que nos dão feedback honesto, mas respeitoso;
    • Um autor que vale a pena ler é Carl Rogers, que enfatiza a importância da autenticidade e do respeito mútuo para o desenvolvimento de relações saudáveis.
  2. Bully (Alto respeito pela verdade, mas baixo respeito pela liberdade do outro)
    • Características: A pessoa é brutalmente honesta, mas sem levar em consideração os sentimentos e a autonomia do outro. Pode ser crítica, direta e, às vezes, rude, justificando o seu comportamento como “sendo apenas sincera”;
    • Exemplos: Pessoas que fazem comentários ofensivos sob a justificação de que “a verdade precisa de ser dita”, ou pais que impõem as suas opiniões aos filhos sem os escutar;
    • Recomendo a leitura de Marshall Rosenberg, que argumenta que a verdade deve ser comunicada com empatia para evitar relações desgastantes.
  3. Bajulador (Alto respeito pela liberdade, mas baixo respeito pela verdade)
    • Características: Evitam conflitos e deixam os outros livres para agir como quiserem, mas fazem isso sem honestidade total. Podem omitir informações, distorcer factos ou dizer “meias verdades” para manter a harmonia no relacionamento.
    • Exemplos: Pessoas que dizem estar bem quando não estão, amigos que nos elogiam falsamente para evitar conflitos, líderes que não falam abertamente sobre problemas na equipa.
    • Leitura recomendada: Paul Ekman, que descreve como a mentira socialmente motivada pode ser usada para evitar confrontos, mas pode corroer a confiança ao longo do tempo.
  4. Tóxico (Baixo respeito pela liberdade e pela verdade)
    • Características: A pessoa mente, manipula e tenta controlar o outro para atender às suas próprias necessidades. Pode usar a coerção emocional, a chantagem, o “gaslighting”, ou seja, a distorção da realidade para manter o poder na relação.
    • Exemplos: Parceiros abusivos que manipulam a percepção do outro, chefes tóxicos que inventam justificações falsas para desvalorizar funcionários, tomar decisões arbitrárias ou mesmo colocar membros da equipa uns contra os outros para promover uma competitividade não-saudável.
    • Sobre a toxicidade recomendo a leitura de  Lundy Bancroft, que nos explica como pessoas manipuladoras distorcem a verdade para exercer controlo sobre os outros.

Estes quatro estilos ajudam a entender como diferentes abordagens ao respeito pela verdade e pela liberdade moldam os relacionamentos interpessoais. O ideal seria buscar um equilíbrio entre autenticidade e respeito pelo espaço do outro, evitando extremos que podem levar a relações desgastantes ou abusivas.

Os 4 estilos: características e implicações

Analisemos um pouco mais a fundo estes 4 estilos e o que fazer com eles...

  1. VIRTUOSO

Características:

• Valoriza a honestidade, mas comunica-a com empatia.

• Respeita os sentimentos e a autonomia do outro.

• Não usa mentiras para evitar conflitos, mas também não impõe a sua verdade de maneira agressiva.

• Tem capacidades de escuta ativa e comunicação assertiva.

Impacto nos relacionamentos:

• Cria laços baseados em confiança e respeito mútuo.

• Favorece o crescimento pessoal e interpessoal.

• Reduz conflitos desnecessários, pois há transparência e compreensão.

Como lidar com este estilo:

Se for você:

  • Continue a praticar a comunicação assertiva – ser honesto, mas com empatia.
  • Fortaleça a sua escuta ativa – prestar (realmente) atenção ao que o outro sente e precisa.
  • Evite o excesso de sinceridade em momentos inadequados – às vezes, o silêncio ou uma abordagem mais cuidadosa são mais eficazes.
  • Cultive a inteligência emocional – perceber quando a outra pessoa está mais vulnerável e adaptar a sua comunicação.

Se for outra pessoa:

  • Valorize este tipo de pessoa e procure manter esse relacionamento.
  • Se precisar de dar feedback, faça isso com abertura e respeito, pois elas costumam estar dispostas a ouvir.
  • Fortaleça o vínculo, incentivando a reciprocidade: demonstre gratidão quando a pessoa for honesta e respeitosa consigo.

2. BULLY

Características:

• Diz a verdade sem considerar os sentimentos do outro.

• Acredita que ser honesto é mais importante do que ser gentil.

• Pode parecer arrogante, crítico ou sarcástico.

• Acha que expressar suas opiniões livremente é um direito absoluto, sem considerar o impacto delas.

Impacto nos relacionamentos:

• Pode criar ressentimentos e afastamento.

• As pessoas podem evitar interações por medo de críticas.

• Dificuldade em construir relações emocionais profundas.

Como lidar com este estilo:

Se for você:

  • Pratique a empatia cognitiva – tente ver como as suas palavras podem afetar os outros.
  • Use o método do feedback construtivo:
    • Comece com um elogio genuíno
    • Diga a verdade, mas de forma construtiva
    • Finalize com um incentivo ou sugestão positiva
  • Pergunte-se antes de falar: O que estou prestes a dizer realmente ajuda esta pessoa?
  • Trabalhe a linguagem corporal e tom de voz, para que a sua sinceridade não pareça rude.

Se for outra pessoa:

  • Use a técnica do “Espelho Emocional”: se a pessoa falar de forma dura, responda com calma, mostrando que há outra maneira de comunicar.
  • Diga-lhe diretamente qual o impacto das palavras dela: “Eu valorizo a sua sinceridade, mas prefiro que você diga isso de uma forma mais respeitosa.
  • Se a pessoa insistir em ser rude, estabeleça um limite firme: “Não aceito esse tipo de comunicação comigo.”
  • Se o relacionamento for importante, peça para a pessoa praticar Comunicação Não Violenta (CNV) e dê exemplos práticos de como ela poderia expressar-se melhor.

3. BAJULADOR

Características:

• Evita conflitos a todo o custo, mesmo que para isso necessite de esconder ou distorcer a verdade.

• Usa pequenas mentiras para preservar a paz ou evitar magoar os outros.

• Pode ser excessivamente diplomático, nunca expressando claramente as suas próprias opiniões.

• Tende a ser passivo-agressivo, pois não expressa diretamente as suas frustrações.

Impacto nos relacionamentos:

• Pode gerar desconfiança, quando as mentiras ou omissões são descobertas.

• Relações superficiais, pois as pessoas não sabem o que realmente se passa.

• Pode causar frustração nos outros, que percebem a falta de clareza.

Como lidar com este estilo:

Se for você:

  • Trabalhe a sua assertividade – aprender a dizer o que realmente pensa e sente.
  • Substitua mentiras ou omissões por frases que respeitem os sentimentos dos outros, mas sem fugir da verdade. Exemplo: em vez de dizer “Estou bem” quando não está, diga “Prefiro não falar sobre isso agora, mas agradeço a sua preocupação.
  • Lembre-se de que conflitos saudáveis são necessários para relações autênticas – fugir deles pode gerar ressentimentos.
  • Treine a autoexpressão gradual – não precisa de mudar drasticamente, mas tente ser um pouco mais honesto a cada conversa.

Se for outra pessoa:

  • Encoraje a honestidade, criando um ambiente seguro para a pessoa se expressar. Exemplo: “Prefiro que você seja sincero comigo, mesmo que a verdade não seja agradável.
  • Use perguntas abertas para incentivar mais transparência: “O que realmente pensas sobre isto?
  • Diga diretamente quando perceber a manipulação: “Prefiro que você fale claramente o que quer, sem rodeios.
  • Se perceber passividade excessiva, incentive a pessoa a expressar as suas opiniões e mostrar que as suas ideias têm valor.

4. TÓXICO

Características:

• Usa mentiras, distorção da realidade e manipulação para controlar os outros.

• Pode recorrer a chantagem emocional, “gaslighting” ou ameaças veladas.

• Não respeita a autonomia alheia e quer impor a sua vontade.

• Normalmente apresenta comportamentos narcisistas ou abusivos.

Impacto nos relacionamentos:

• Pode gerar relacionamentos abusivos e destrutivos.

• Faz a outra pessoa duvidar da própria percepção da realidade (“gaslighting”).

• Cria um ambiente de medo e insegurança.

Como lidar com este estilo:

Se for você:

  • Reflita sobre as suas motivações – você usa mentiras ou manipulação para manter o controlo ou evitar a sua vulnerabilidade?
  • Trabalhe a sua autenticidade – ser verdadeiro pode ser desconfortável no início, mas fortalece os relacionamentos a longo prazo.
  • Aprenda a respeitar a autonomia do outro – não tente forçar ou distorcer a realidade para seu benefício.
  • Se perceber traços mais intensos (como “gaslighting” ou manipulação constante), pode ser necessário recorrer a terapia para entender os seus padrões inconscientes de comportamento.

Se for outra pessoa:

  1. Estabeleça limites claros – manipuladores testam até onde podem ir. Diga: “Eu não aceito esse tipo de comportamento.”
  2. Evite cair no jogo emocional – manipulação geralmente envolve culpa, chantagem emocional ou distorção da realidade.
  3. Confie nos seus instintos – se sentir que algo parece estranho ou forçado, questione.
  4. Se houver “gaslighting” (a pessoa a tentar fazê-lo duvidar da sua própria percepção da realidade), registe eventos importantes para se lembrar do que realmente aconteceu.
  5. Se a manipulação for muito intensa e prejudicial, considere afastar-se – esse tipo de relação pode ser tóxica e difícil de mudar sem um esforço genuíno da outra parte.

Conclusão

Os quatro estilos de relacionamento interpessoal são formados pelo equilíbrio (ou desequilíbrio) entre respeito pela liberdade do outro e respeito pela verdade. O ideal é procurar ter um estilo Autêntico e Respeitoso, onde há honestidade, mas também empatia.

Se perceber que você ou alguém próximo está num dos estilos problemáticos, é possível trabalhar competências como assertividade, empatia e comunicação não violenta para melhorar os relacionamentos.

Se quiser ouvir mais sobre este tema, não deixe de ouvir o nosso podcast: