Se a IA personalizar todo o conteúdo, qual será o papel irredutivelmente humano do educador executivo?

Confesso que esta pergunta me assombra com mais frequência do que gostaria. O mercado da educação executiva está em franca expansão — projecta-se que ultrapasse os 55 mil milhões de dólares em 2026 — mas o que se vende dentro dessas salas está a mudar mais depressa do que os próprios programas conseguem acompanhar. A Emeritus destaca que a literacia em IA se tornou fundamental, e a London Business School nota que a IA generativa já produz outputs contextualmente precisos. Se um executivo pode perguntar a um algoritmo e obter um case study adaptado à sua indústria em segundos, para que servem 30 horas de sala de aula?

A resposta, acredito, está no que nunca poderá ser digitalizado: a tensão do debate, o desconforto do questionamento socrático, a alquimia que nasce quando 20 mentes experientes colidem com uma ideia incómoda. A tecnologia entrega informação; a sala de aula entrega transformação. Mas isto só é verdade se o facilitador souber criar espaço para o não-dito, para a pergunta que ninguém se atreve a fazer, para a vulnerabilidade do “não sei”.

Ainda assim, o desafio é real. Como defende um artigo recente no LinkedIn, a educação executiva em 2026 vive uma era que muda tudo. Não nos folhetos de marketing, mas na própria arquitectura da aprendizagem. A sala de aulas está a migrar de um lugar de transmissão para um espaço de orquestração — onde o professor é menos um oráculo e mais um maestro de experiências.

E aqui entra a minha própria reflexão: o valor dos nossos cursos para executivos não está na informação que transportamos — essa está já disponível à distância de um clique. Está na curadoria, no timing da provocação, na capacidade de ligar um conceito abstracto à dor concreta de quem está à nossa frente. O facilitator torna-se um curator of discomfort.

A questão que me deixo — e que deixo a quem forma líderes — é esta: se a IA personalizar todo o conteúdo, qual será o papel irredutivelmente humano do educador executivo?

Fontes consultadas