Se apenas 20% das pessoas acreditam no que fazem, quem é que realmente temos a trabalhar connosco?
Se há dados que me têm tirado a paz ultimamente, são estes: apenas 20% dos colaboradores em todo o mundo estão verdadeiramente comprometidos. O State of the Global Workplace 2026 da Gallup não é um relatório; é um tratado de emergência organizacional. E a emergência em análise somos nós, líderes e gestores, que assumimos que a motivação é um dado adquirido.
Nos Estados Unidos, a situação atingiu um mínimo da década: 31% de engagement, o que significa que dois em cada três americanos vão para o trabalho apenas com o corpo e a sua mente a pairar noutro lado. Para mim, o dado mais perturbador não são os 20% de comprometidos; são os 64% que a Gallup classifica como “não comprometidos” — presença física com ausência emocional. Estamos a gerir salas cheias de fantasmas produtivos.
A dimensão económica é avassaladora. A Gallup estima que organizações com equipas altamente comprometidas atingem mais 23% de rentabilidade e menos 51% de rotatividade. Isto traduz-se numa vantagem competitiva real, mensurável, palpável. E, no entanto, continuamos a tratar o compromisso como uma buzzword de RH, algo que uma actividade de team building anual ou uma newsletter corporativa simpática resolverão...
O que me intriga — e inquieta — é a complacência com que aceitamos esta realidade. Como se o desinteresse fosse uma condição meteorológica sobre a qual não temos controlo. Mas o compromisso não é clima; é arquitectura. É o resultado de decisões estruturais sobre autonomia, reconhecimento, clareza de propósito e, acima de tudo, da qualidade da relação com o gestor directo.
Numa outra análise do WorkTime, o engagement nos EUA em 2026 representou o pior resultado da década. O que se passou? Não foi apenas a pandemia, nem a inflação, nem o regresso ao escritório. Foi a acumulação de promessas não cumpridas, de narrativas de propósito vazias e de sistemas de avaliação que premeiam a sobrevivência em vez da excelência.
A pergunta que deixo no ar é esta: se apenas 20% das pessoas acreditam no que fazem, quem é que realmente temos a trabalhar connosco?
