Reflexões, Trends

Nós somos o caminho que fazemos

Balanços de vida, destino e nexos de causalidade

Aproxima-se o fim do ano e começa a emergir devagarinho aquela tentação de fazer um balanço do nosso ano. Essa construção abstracta da mente humana para medir um eterno presente, a que chamamos tempo, propicia, com as suas unidades de medida um marco propício a uma reflexão retrospectiva sobre as nossas realizações, as nossas desilusões, as nossas conquistas e as nossas frustrações.

2016, apesar de ter sido um ano de grandes realizações para Portugal (crescimento da economia, Europeu de Futebol, muitas outras conquistas desportivas, um Secretário Geral da ONU, o WebSummit, o emergir das startups, a nova “movida” de Lisboa e do Porto e o boom de turismo, etc, etc, etc) também foi um ano de enormes perplexidade e sinais de preocupação (dos quais destaco apenas o Brexit, as eleições norte-americanas e o desastre humanitário na Síria). Ao nível das pessoas de norme qualidade que nos deixaram em 2016 nem vou tentar fazer qualquer enunciação (a lista é longa e provavelmente ainda não terminou).

Apesar de todos estes potenciais balanços entre coisas boas e más, tenho enorme relutância em classificar como bom ou mau qualquer ano. E isto porquê? Porque acredito que os acontecimentos não valem por si só, mas sim por aquilo que decidimos fazer com eles. Nem de outra maneira poderia ser, uma vez que abraço um locus de controle claramente interno. Sobre locus de controle escrevi abundantemente nos meus posts (ver aqui), pelo que não irei alongar-me sobre isso.

Mas nem só de locus de controle se trata. Trata-se de como desenvolver uma atitude construtiva face à vida, através daquilo a que eu chamo um pensamento olímpico (eu e não só, que a expressão foi inventada pela atleta Marilyn King (sobre este tema podem espreitar o meu post “Com que polaroid fotografamos o nosso trabalho?” e a minha palestra TED).

Ao longo deste ano cruzei-me com muita gente imensamente talentosa. Uma dessas pessoas, uma mente brilhante, tem-me proporcionado algumas tertúlias interessantes à volta do tópico do destino. Sendo uma pessoa inteligentíssima mas com uma costela mais virada para a espiritualidade, a sua enorme capacidade de observação permite-lhe encontrar padrões nas inúmeras e infindáveis sequências de factos com que se depara na sua jornada de vida. Face a este tipo de talento, muitas vezes dá por si a atribuir sentido a determinados padrões factuais, explicando-os como sendo produto do destino ou do (como costuma dizer) “plano do universo”.

Independentemente das crenças que possa ou não ter, a minha costela de homem de ciência não resiste a um bom contraditório face a esta linha de pensamento, ou pelo menos a encontrar uma explicação mais científica para estes padrões de acontecimentos e seus supostos nexos de causalidade.

Fui por isso buscar dois referenciais teóricos: um à física quântca e outro à teoria do caos.

Comecemos pela física quântica. Para explicar este tal “plano do Universo” eu costumo invocar a experiência do gato de Schrodinger. Sobre isto já escrevi desenvolvidamente no meu post “O Principio de Schrodinger“, mas apresento aqui o racional resumido: a teoria do gato de Schrodinger postula que tudo passa a existir quando, e apenas se, passar a ter um observador. Ou seja, a matéria só passa a ser matéria quando observada. É pois a presença de um observador que transforma algo em realidade. Até lá limita-se a ser apenas uma mera possibilidade.

Se pensarmos bem neste princípio da física quântica, constatamos que o mesmo pode ser ligado a qualquer nexo de causalidade, a factos puros e duros e até às relações humanas.

Senão vejamos: à luz de Schrodinger, eu, que me cruzo com milhares de pessoas ao longo do anos (entre alunos, colegas, clientes, amigos e conhecidos) apenas me cruzo afinal com diversas “possibilidades” em termos de relações humanas. Apesar de serem pessoas, esses milhares de individualidades com quem me cruzo têm um significado e uma importância meramente difusos, porque produto de um cruzar casual de trajectórias.

Todavia, há pessoas que eu conheci e que só mais tarde (às vezes anos mais tarde) eu vim de facto a conhecer, porque as circunstâncias da vida levaram a que interagíssemos com significado relevante atribuído por mim. Ou seja, porque eu passei a observar aquela pessoa à luz de um novo olhar, verdadeiramente significativo, aquela pessoa deixou de ser invisível para mim e passou a ser alguém importante, alguém que parece que estava “destinada a cruzar-se comigo”.

A teoria do gato de Schrodinger explica-nos assim que haverá certamente uma razão para eu ter conhecido aquela pessoa só naquele segundo momento, ou melhor, para nos termos conhecido naquele segundo momento (sim, porque eu também não sou o mesmo que era antes). A essa razão chamo atribuição de significado. Os nossos caminhos, mesmo depois de se terem cruzado no primeiro momento, não passavam de uma possibilidade ignorada por ambos. Hoje esse primeiro momento terá um significado diferente se foi observado por ambos e daí tenha sido estabelecido um nexo de causalidade que não só tornou verdade esse cruzar de caminhos como irá condicionar a jornada de ambos daqui para a frente.

Por isso mesmo o livre arbítrio pode conviver com o destino.

Porque o que chamamos destino mais não é que a revelação da coerência dos significados que decidimos atribuir àquilo que nos acontece.

Ou seja, as nossas decisões e a percepção que temos das mesmas podem reforçar um locus de controle mais interno e solidificar toda a arquitectura da nossa catedral interior a que chamamos “sentido da vida”.

Assim, a pergunta que se coloca a seguir é apenas esta: então nós não passamos de indivíduos que, para lidar melhor com o carácter aleatório do que nos acontece, passamos a vida a atribuir sentido àquilo que aconteceu por acaso? Seremos meros patetas a correr atrás de significados reconfortantes?

A esta dolorosa pergunta terei de responder veementemente “não”. E explico a seguir porquê 😉

A teoria do caos e o efeito borboleta

Afinal há ou não aleatoriedade naquilo que nos acontece? Sim, há. Mas o que nos acontece não se limita a um fluxo aleatório de acontecimentos. Esse fluxo é dinâmico e permanentemente afectado por acontecimentos que são gerados pelos outros agentes presentes no meio que nos rodeia.

Alguns, como as forças da natureza, são razoavelmente aleatórios, seguindo todavia o padrão estabelecido pelas leis da natureza, como por exemplo as regras universais da física e da química.

Outros têm um padrão mais complexo, porque derivam de acções deliberadas (são os acontecimentos provocados por outros seres humanos).

Em ambos os casos, o que a teoria do efeito borboleta nos diz é que o mundo é uma entidade sistémica, em que todos os acontecimentos afectam o padrão de eventos futuros, de tal forma que a metáfora ilustrativa do fenómeno nos diz que um bater de asas de uma borboleta na Europa pode provocar um tsunami na Ásia, tal é o carácter exponencial do efeito de dominó que uma acção pode provocar. Sobre o efeito borboleta também escrevi no meu blog (ver aqui).

Assim a teoria do caos e o efeito borboleta postulam que tudo o que fazemos afecta de alguma forma o que nos rodeia e os eventos futuros. É no fundo a versão científica do princípio popular de que todos colhemos o que semeamos. Algo que as nossas queridas mães nos ensinam desde pequeninos…

Se juntarmos as duas teorias ficamos com uma ética de acção que nos norteia no presente, nos orienta o futuro e nos ajuda a atribuir significado ao passado.

Porque o nosso livre arbítrio é também uma responsabilidade perante os outros e perante nós próprios, afectando o destino de tudo o que nos rodeia.

O plano universal pode assim coabitar com a nossa singularidade e a nossa vontade, ajudando-nos a compreender e a aceitar o nosso karma, que nunca é produto apenas de sorte ou acaso.

Por isso costumo dizer que nós somos o que somos, mas aquilo que somos mais não é que o produto do caminho que fazemos.

Ou seja, aquilo que nos define enquanto indivíduos não é até onde nos levou a jornada da vida, mas sim como decidimos a todo o momento fazer essa mesma jornada. É por isso que seremos verdadeiramente recordados.

Ao compreendermos isto torna-se muito mais simples fazer as pazes connosco próprios, não vos parece?

Votos de Boas Festas e um excelente 2017 😉

Deixo-vos com um interessante vídeo sobre o efeito borboleta.

Enjoy 😉

Reflexões, Trends

Gerir em Tempos Exponenciais

complexity_1Não posso deixar de referenciar um excelente post que li há algum tempo no blog Ideias Em Série, intitulado Complexidade e “Governo 2.0”, que nos relata, de forma clara e ilustrativa, como os paradigmas mudam de forma assombrosa nos tempos exponenciais que vivemos.

Estes tempos de mudança acelerada são tempos de grande complexidade, em que os padrões que nos regem resultam mais da interacção dos diversos agentes do que de um plano deliberado. O advento da Web 2.0 e a literacia digital das novas “gerações Magalhães” são disso exemplos marcantes: exemplos de como a realidade ultrapassa muitas vezes a nossa mente, seja em criatividade, seja em velocidade (isto para não dar como exemplo o já tristemente clássico tsunami do sub-prime e a crise que aí veio e virá…).

Isto cria assim um dilema angustiante: se o que acontece não resulta de um planeamento deliberado, mas sim de uma interacção dinâmica de diversos agentes, então como podemos gerir neste contexto de risco e de incerteza? Valerá de algo tentar gerir?

Na minha opinião, sim. Todavia, implica gerir de uma forma diferente. Diferente porque assenta no paradigma criativo, em vez de assentar no paradigma burocrático.

A maioria de nós foi educada e treinada a trabalhar com base no paradigma burocrático, em que um conjunto de regras bem definidas, em função de uma arquitectura hierárquica clara e de um plano rigorosamente estabelecido, garantiria o alcance dos objectivos. Esta “ordem organizacional”, em grande parte inspirada em Max Weber, funcionou relativamente bem em ambientes razoavelmente estáveis, em que a mudança acontecia lentamente e as variáveis eram também elas fáceis de controlar e gerir, permitindo a previsão como base de trabalho do estabelecimento das premissas de qualquer plano.

Ora o que hoje se passa é precisamente o contrário. A crise que enfrentamos é disso prova gritante: as premissas mudam todos os dias e os efeitos de dominó são exponenciais (assumindo contornos de butterfly effect – cf. post Girl Effect). Neste contexto, tentar controlar todas as variáveis é como tentar parar uma onda com as mãos, por muito que a tentação do controle exista – cf. o meu post Controlholics.

Quer isto dizer que nos devemos resignar ao caos da complexidade, assumindo uma posição de laissez faire? Não, de todo! Na minha perspectiva, há que gerir considerando novas variáveis de gestão, a saber:

  • o talento como factor diferenciador de uma força de trabalho baseada em conhecimento;
  • o potencial produtivo como algo que depende da vontade de cada um em disponibilizá-lo;
  • a criação em conjunto e em rede como factor potenciador da qualidade e velocidade dos resultados;
  • a interdependência à escala global como uma constante de um contexto permanentemente em evolução;
  • a consequente necessidade de olhar permanentemente para a envolvente externa e para o ajuste interno das organizações a essa envolvente;

Tendo em consideração estas premissas, é possível ao gestor tomar a iniciativa de inovar em tempo real, antecipando tendências e satisfazendo necessidades emergentes (aproveitando assim oportunidades que outros ainda não detectaram).

Ao fazê-lo, está:

  • a operar em terrenos em que a competição é menos consumidora de recursos, numa lógica blue ocean;
  • ao tomar a iniciativa está a modelar o contexto actual e o futuro, numa lógica de architectural advantage;
  • ao modelar o contexto, está a ganhar a vantagem de influenciar as regras do jogo em que vai competir, numa lógica de game changing strategy.

Desta forma o gestor reduz as margens de incerteza do seu negócio, reduzindo o seu risco de operação sem ter a pretensão de o eliminar ou de controlar todos os factores. Implica isto que o controle morreu? Claro que não.

A capacidade de antecipar tendências e de conseguir um ajustamento ao mercado em tempo real é algo que se consegue com um exame rigoroso ao mercado, com sistemas de CRM eficientes e com abordagens e práticas de controlo de gestão que permitam analisar indicadores de negócio em real time, numa lógica de fast scorecard.

Não fazemos todavia já isto? Sim, em muitos casos é verdade. Mas também é verdade que em muitos casos isto se faz transformando a ferramenta num fim em si mesmo, ou seja, fazendo do controlo o foco da gestão, em vez de o mesmo estar no processo de tomada de decisão, no empreendedorismo, no negócio, em suma, na criação de valor.

Votos de boa reflexão 🙂

Trends

The Girl Effect

Uma nota breve, inspirada pelo blog Ideias em Série, que há tempos falava sobre O Novo Efeito Borboleta.

A teoria do Efeito Borboleta basicamente postula que mesmo as mínimas acções têm impacto na envolvente, gerando consequências que podem aumentar exponencialmente de dimensão e percorrer distâncias assombrosas.

Esta é talvez uma das componentes mais celebrizadas da Teoria do Caos, já deu origem a muitas peças de escrita e até mesmo a uma peça cinematográfica, e pode ser ilustrada pela ideia de que o bater de asas de uma borboleta sobre Tóquio pode provocar uma tempestade em Nova Iorque.

O novo Efeito Borboleta que é apresentado neste post refere-se a um vídeo de uma organização chamada The Girl Effect , cuja visualização recomendo, e que gira à volta do que poderão ser as consequências mundiais resultantes do facto de ajudarmos uma jovem do 3º mundo a ter acesso a melhores oportunidades.

Este é pois um conceito e uma iniciativa que surge em linha com a filosofia do microcrédito, que já referi num post anterior, ou mesmo do capitalismo criativo, também já aqui referenciado.

Enjoy it 🙂 !