Reflexões, Trends

Timberland: o pós-capitalismo sustentável

Ao passar os olhos pela Executive Digest deste mês, descobri um personagem notável: Jeff Swartz, o CEO da Timberland.

Jeff é um CEO invulgar, que lidera uma organização com uma marca fortíssima (quem não teve, tem ou quis ter umas botas Timberland? 🙂 ), que se diferencia não só pela qualidade dos seus produtos, como também pelo seu posicionamento audaz e pioneiro ao nível da responsabilidade social.

Na Timberland os padrões de exigência com a protecção dos funcionários da produção são uma referência mundial, bem como a rejeição de fornecedores que violem os direitos humanos. Ao nível ambiental, a Timberland é responsável pela plantação de milhões de árvores e privilegia fornecedores que recorram a energias renováveis no seu ciclo produtivo.

Estas práticas foram sempre consideradas como exemplos a seguir e Jeff Swartz como um role model da gestão socialmente responsável. Nada disto foi questionado enquanto a Timberland prosperou. E a Timberland prosperou muito: a sua capitalização bolsista quase decuplicou entre 1992 e 2005, chegando aos mil milhões de euros!

Mas os tempos fáceis acabaram: em 2007 as receitas desceram pela primeira vez, e hoje a Timberland vale 50% daquilo que foi o seu pico de capitalização no mercado de capitais…

E, todos sabemos, em tempos difíceis é comummente aceite que se comecem a cortar custos, especialmente naquilo que os gestores consideram, assumida ou dissimuladamente, verdadeiramente supérfluo.

Logo, seria de esperar que a responsabilidade social aparecesse no topo da lista de cortes, certo? Pois bem, a história não foi nada assim!

Jeff Swartz persiste “teimosamente” em manter a mesma linha de gestão socialmente responsável, defendendo que, a prazo, as empresas socialmente responsáveis serão recompensadas pelo mercado e pelos consumidores.

Este exemplo de pós-capitalismo sustentável é uma inspiração para os que acreditam que a ética é um valor que prosperará nos modelos de mercado livre – cf. o meu artigo Business Ethics -, o que parece ser confirmado por várias tendências concorrentes, em tempos em que até o colosso da informática Bill Gates vem defender alternativas criativas de capitalismo. E revela uma visão a prazo, em que não há lugar ao imediatismo, tantas vezes destruidor de valor – cf. o meu post sobre o Efeito Laplace.

Deixo-vos a versão digital da entrevista de Jeff Swartz que li na Executive Digest (versão internacional, no site da Fast Company), bem como um vídeo muito interessante do Jeff, explicando as suas políticas de responsabilidade social.

Enjoy it 🙂 !

Reflexões, Trends

Capitalismo Criativo

Um recente artigo da Harvard Business School despertou-me o interesse sobre o tópico de hoje: capitalismo criativo.

O conceito torna-se objecto de forte discussão pública desde o famoso discurso de Bill Gates, feito em Janeiro passado no World Economic Forum, em Davos.

Nesse discurso, Gates afirma, no seu polémico estilo, que muitos dos grandes problemas mundiais não podem ser resolvidos através de filantropia, mas requerem em alternativa que as empresas e o mercado livre contribuam de uma forma nova para os resolver: daí o nome de “capitalismo criativo”.

Segundo o artigo da HBS, esta nova tendência cruza os ganhos financeiros com a contribuição social, num mundo que está em forte mudança, e em que as tendências são radicalmente diferentes das que vivemos num passado recente.

São cinco as grandes forças que levam ao emergir do capitalismo criativo, a saber:

  1. Recursos – actualmente, as empresas e o mundo dos negócios em geral são a maior fonte de recursos mobilizáveis para a resolução dos problemas de forma eficaz, a larga distância do Estado, das ONG’s ou das organizações religiosas;
  2. Procura – existe uma cada vez maior força de potenciais consumidores, cidadãos, votantes, líderes de opinião para quem a postura ética e a responsabilidade social são drivers de escolha e recomendação (o que vai de encontro ao que defendi no meu artigo Business Ethics). Por outro lado, existe um imenso mercado potencial de pessoas com poucos recursos, que necessitam de uma oferta específica para as suas necessidades. O exemplo mais marcante desta tendência é precisamente o fenómeno do microcrédito, que referenciei noutro post, em que se concede crédito a quem não tinha a ele acesso, devolvendo ao circuito do mercado milhares de empreendedores e futuros consumidores.
  3. Modelação Corporativa – a forma como as organizações se moldam e interagem entre si está a mudar radicalmente. Redes, colaboração e conectividade são buzzwords que simbolizam o quebrar das barreiras tradicionais (geográficas, organizacionais, legais). Sobre este tema já escrevi nos meus posts Web 2.0: a competitividade pós-capitalista e Inovação Colaborativa.
  4. Transparência – uma geração de novos cidadãos e consumidores globais e exigentes, cada vez mais informados online numa comunidade de conectividade permanente, exigem uma gestão cada vez mais ética e transparente, especialmente após os escândalos da Enron (cf. Business Ethics).
  5. Exemplo Inspiracional – cada vez mais pessoas valorizam líderes e organizações com valores, com uma conduta moral irrepreensível e inspiradora, com uma visão de longo prazo, que faça crescer quem os rodeia. No fundo, o grau de desafio e inspiração que refiro no meu post O Paradoxo de Ícaro.

No artigo da HBS, reforça-se o emergir destas tendências com os exemplos de companhias como a Southwest Airlines, a Google ou a Starbucks, que estão orientadas para satisfazer as necessidades de um vasto leque de stakeholders, que não apenas os accionistas. Um recente estudo demonstra que estas companhias cresceram em ROI cerca de 10 vezes mais que as companhias do S&P 500!

Para quem esteja interessado em aprofundar este tópico, recomendo o blog Creative Capitalism, que é uma fonte riquíssima de pensamento e informação.

Deixo ainda aqui dois vídeos de Bill Gates. O primeiro, breve (5 mins.), explica rapidamente o conceito de capitalismo criativo. O segundo, longo (+ 30 mins.), reproduz integralmente o discurso de Davos.

Enjoy it 😉