Reflexões

Felicidade e Postura Vivencial

O emergir de uma ideia

Hoje, ao refletir sobre a história de vida de uma pessoa que me é próxima, ocorreu-me uma ideia que deu origem a um conceito que ainda não tinha operacionalizado, apesar de trabalhar com ele há já vários anos em executive e life coaching: o conceito de postura vivencial.

De facto, ao longo de muitos anos de aconselhamento e coaching aos mais variados tipos de indivíduos, acabei por me confrontar com padrões de atitude face à vida que posso hoje sistematizar numa framework tipológica que nos ajuda a compreender como o nosso software mental se organiza face a um par de variáveis muito relevantes para a nossa felicidade.

Essas variáveis são o locus de controle e a autenticidade. Deixem-me explicar sinteticamente no que cada um deles consiste.

postura vivencial em esquema

O locus de controle diz fundamentalmente respeito à forma como vemos aquilo que nos acontece e os respetivos nexos de causalidade. Quem tende a ter um locus de controle externo tende a explicar os factos que determinam o curso da sua vida através essencialmente de agentes externos e não da sua vontade, o que leva a uma postura passiva face à gestão da sua própria vida, da sua carreira e até das suas relações, afetos e do seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Este tipo de pessoas usam geralmente uma narrativa que recorre ao verbo condicional e a muitas referências externas do tipo “se me saísse o Totoloto”, “se eu tivesse tido sorte na vida”, “se o País tivesse um Governo competente”, em que as causas de tudo estão sempre fora do seu controlo.

Quem tende a ter um locus de controle interno tende a explicar os factos que impactam no curso da sua vida essencialmente através da sua vontade e não de nenhuma entidade externa, que leva a uma maior proatividade face à sua gestão de vida, o seu desenvolvimento de carreira e mais uma vez dos afetos e das aprendizagens. As pessoas que se enquadram nesta tipologia usam geralmente um discurso que recorre aos verbos de ação e a muitas referências na primeira pessoa do singular do tipo “como fiz isto, consegui aquilo”, “tenho de aprender isto para alcançar aquilo” ou “isto é o que temos de fazer para alcançarmos esta meta”, em que as consequências derivadas dos acontecimentos da vida estão dependentes do que estejam dispostas a fazer por elas.

Sobre esta tendência tipológica e seus antecedentes culturais já escrevi em 2008 no meu artigo “A Pesada Herança de Roma”.

Já a autenticidade tem um enquadramento menos estruturado pelos seus antecedentes teóricos ou conceptuais, e é produto da minha reflexão pessoal. Para ter uma mínima base de fundamentação (teimosia de investigador!), procurei sustentar o meu conceito em algum tipo de fonte. Ao fim de 3 breves minutos de pesquisa na net, encontrei um pequeno post do blog Psichology Today, sob o título “Does Authenticity Lead to Happiness?”, que me deu algum conforto: afinal o conceito que eu desenvolvi parece fazer algum sentido 🙂

A autenticidade tem a ver com autoconhecimento, com a maturidade necessária para sabermos aquilo a que aspiramos, aquilo que verdadeiramente nos motiva e desejamos, e com a coragem de o assumir e ter uma vida coerente e consequente com essas aspirações. Falo de coragem porque nem sempre tal é fácil de descobrir e muitas, mas mesmo muuuitas vezes é extremamente difícil de praticar. Um dos principais fatores de constrangimento são as convenções sociais e as expetativas dos que nos são próximos. Quantas e quantas vezes damos por nós a viver não a nossa vida mas sim a vida que os nossos pais quiseram que nós vivêssemos… e tal acontece na maioria dos casos sem que ninguém se aperceba ou deseje conscientemente essa imposição. Na maioria das situações que conheci, essa imposição foi aliás auto induzida. Pois é… a nossa mente prega-nos partidas.

Mas a desejabilidade social não acontece só através dos pais, que são as figuras parentais clássicas. As expetativas de professores, amigos, colegas, chefes, patrões, entre tantos outros levam a que muitas vezes escolhamos profissões que não nos realizam, estilos de vida que não nos preenchem, modelos de relacionamento familiar que nada nos dizem ou afetos que se revelaram um entusiasmo juvenil. Um exemplo do qual nunca me esqueço foi o de uma antiga aluna minha de licenciatura que se apresentou na minha primeira aula dizendo “Eu estou aqui porque o meu pai me obrigou a tirar o curso de Gestão. Assim que acabar e tiver dinheiro, vou tirar o curso de piloto de aviões, que é aquilo que verdadeiramente me apaixona!” Elucidativo, não?

Ora bem, ao cruzarmos estes dois tipos de variáveis tipológicas, encontramos quatro perfis possíveis de postura vivencial, ou seja, da forma como tendemos a encarar e a viver a nossa vida, ou seja, de fazer a nossa jornada por este mundo.

Os 4 perfis

Por um lado temos o Senador, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece não depende de si e a ter um baixo grau de autoconsciência. Como não assume o que verdadeiramente quer (muitas vezes nem tem isso claro para si), tende a estar permanentemente insatisfeito, apesar de achar que fez tudo certo. Por isso mesmo, culpa o contexto e os outros de todos os males, de todos os azares e infortúnios, tendendo a olhar para a vida pelo lado do copo meio vazio. Tende a ser uma pessoa amarga e que se leva demasiado a sério, tendendo para o conflito e para desenvolver relações baseadas em emoções negativas. Tal como um “senador” (passe o estereótipo), assume uma postura de sobranceria perante os outros. Estas são pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade baixo (sobre este conceito, da autoria da Barbara Fredrikson, ver o meu post “Gestão da Felicidade”).

Por outro lado temos o Poeta, ou seja, alguém que mais uma vez tende a achar que o que lhe acontece não depende de si, mas, ao contrário do Senador, tem um alto grau de autoconsciência. Como sabe o que verdadeiramente quer (mas muitas vezes não tem a capacidade de tomar a iniciativa para lá chegar), tende a estar permanentemente insatisfeito, revisitando sem parar o que seria a sua vida se tivesse tomado a iniciativa de mudar o curso dos acontecimentos. Por isso mesmo, culpa o contexto e os outros de todos os motivos que o impediram de tomar boas decisões, e, tal como o estereótipo do “poeta”, desenvolvendo uma atitude melancólica face à vida que gostaria de ter ou de ter tido, tendendo a olhar para a vida mais uma vez pelo lado do copo meio vazio. Os poetas tendem a ser pessoas tristes e que têm baixa autoestima, tendendo para a submissão ou para o evitamento do conflito, desenvolvendo relações desequilibradas, plenas de frustração e baseadas em emoções negativas. São também elas pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade baixo, exceto se tiverem a sorte de lhes calhar uma vida de feição com as suas aspirações, apesar de não terem feito nada por isso.

Do lado do locus de controle interno temos primeiramente o Gladiador, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece depende acima de tudo de si, mas, ao contrário do Poeta, tem um baixo grau de autoconsciência. Como não sabe o que verdadeiramente quer (ou sabe, mas não tem a coragem de o assumir), tende a estar permanentemente insatisfeito, lutando sem parar para mudar o curso dos acontecimentos. Por isso mesmo, culpa-se a si próprio por não ser feliz, acreditando que se continuar a lutar vai lá chegar (mesmo que não seja claro como). Muitas vezes o Gladiador consegue compensar de alguma forma a sua frustração com a dimensão da sua vida que não o realiza, tendendo a brilhar e a realizar-se noutras dimensões. Um exemplo típico é alguém que se realiza e pleno em termos profissionais e cívicos, como forma de compensar uma vida pouco ou nada realizada ao nível dos afetos. O exemplo oposto também se mostra muito frequente, pela minha experiência profissional. Um gladiador, sendo um lutador, tende a olhar para a vida pelo lado do copo meio cheio, mesmo quando há adversidades, procurando a felicidade através da conquista de novos ganhos e ignorando o mais possível as perdas. Os gladiadores tendem a ser pessoas alegres e extrovertidas, com enorme orgulho e alta autoestima, tendendo para a afirmação persuasiva ou mesmo para a afirmação territorial, não temendo o conflito. Desenvolvem relações desequilibradas, plenas de altos e baixos emocionais. São pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade alto, se bem que com dificuldade em manter esse rácio de forma consistente.

Por fim temos a postura vivencial do Herói, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece depende também de si, mas, ao contrário do Gladiador, tem um alto grau de autoconsciência e uma enorme coragem, inclusive para assumir as suas fraquezas, defeitos e contradições. Sabe o que verdadeiramente quer (e tem a coragem de o assumir), pelo que tende a estar permanentemente em paz consigo próprio, mesmo quando segue o caminho menos convencional ou mais difícil para mudar o curso dos acontecimentos de forma a levar uma vida mais autêntica. Por isso mesmo, assume a dor e as potenciais perdas que as suas decisões podem implicar como sendo o preço para ser feliz, acreditando que se continuar pela trilha certa vai atingir a realização plena (mesmo que não seja evidente durante as agruras da caminhada). Muitas vezes o herói consegue compensar de alguma forma o potencial escrutínio social através da sua sensação de plena realização, de coerência e de gratidão pela caminhada que tem a sorte de fazer, com as suas dificuldades e fraquezas, mas também com a ajuda de muitos. O herói tem a coragem de assumir que não sabe tudo, logo é o mais eficaz dos aprendizes, tendo noção plena do seu auto desenvolvimento e sabendo lidar bem com as suas limitações. Um herói, sendo um otimista corajoso, tende a olhar para a vida pelo lado do copo meio cheio, mesmo quando há rejeição ou adversidades, vivendo a felicidade através da fruição dos mais pequenos ganhos e desvalorizando as perdas, ou, em muitos casos, aprendendo a perceber (olhando em retrospetiva) os ganhos de longo prazo que estão escondidos em perdas de curto prazo. Os heróis são atribuidores de sentido por excelência, e tendem a ser pessoas alegres e serenas, com forte e sadia autoestima, temperada pela sabedoria. Tendem para uma afirmação cooperativa, sendo contagiantemente entusiásticas. Tendem a desenvolver relações equilibradas, tendo boas hipóteses de desenvolver um rácio de felicidade alto e consistente.

Apesar de não ter evidência empírica que o confirme nem instrumentos que o meçam, a minha experiência profissional e pessoal sugere-me que, muito provavelmente, tenderão a existir entre nós mais Poetas e Senadores que Gladiadores e Heróis… Acredito porém que a Postura Vivencial, apesar de ser uma tendência, também pode ser uma opção consciente, que pode ser cultivada. Espero poder desenvolver melhor estes conceitos no futuro, e investigá-los adequadamente. Afinal, levaram-me a escrever compulsivamente este post até às tantas da madrugada 🙂

Deixo-vos com uma referência ao site da Penn University sobre Authentic Happiness, bem como com um vídeo muito interessante do famoso investigador Martin Seligman, sobre o seu livro “Authentic Happiness”. Enjoy it! 😉

Desafios, Reflexões

Felicidade à prova de bala…

happinessEscrevo este post após quase um ano de silêncio aqui no Mentes Brilhantes. Este blog esteve em silêncio não por não haver nada para dizer, mas sim porque tudo o que aconteceu neste ano não deixou tempo para escrever nem uma linha que fosse.

Este foi de facto um ano absolutamente extraordinário, seja em termos de desafios, seja em termos de peripécias, seja em termos de adversidades, mas também de oportunidades. O ritmo frenético a que tudo acontece chega a ser muitas vezes avassalador, mas duvido que a vida tivesse tanto sabor se não fosse esta enorme correria. Porque é uma correria que se faz com gosto. De outra forma seria bem menos interessante.

E este gosto deriva das nossas realizações e do sentido que atribuímos ao que fazemos. O ser humano tem fome de sentido, tem fome de propósito, tem uma enorme necessidade de ter uma boa razão para se levantar todos os dias de manhã com vontade de fazer coisas. Como diria o admirável Carlos Coelho, CEO da Ivity Brand, todos temos vontade de deixar a nossa marca no mundo… e é verdade, estamos geneticamente fadados para isso 🙂

Começo e termino este post a partir de Luanda, destino que esteve presente no meu roteiro todos os meses deste ano. Terra de oportunidades e de esperança, simboliza uma Angola que se está a reinventar, com uma energia e uma alegria admiráveis, especialmente vindas de um povo que tanto sofreu nos quarenta anos de guerra que viveu. É impressionante ver a alegria e determinação com que aproveitam as virtudes da paz e do desenvolvimento económico, apostando no desenvolvimento e formação dos seus quadros. É um enorme privilégio contribuir para este esforço coletivo.

Escrevo este post dias depois de concluir o meu doutoramento, uma jornada de sete árduos anos de trabalho, esforço, dedicação e enorme elasticidade organizativa. Devo este sucesso a uma enorme quantidade de pessoas (amigos, familiares, colegas) que me apoiaram, que me deram condições muito favoráveis ao estudo e ao desenvolvimento dos trabalhos de investigação, que foram enfim a minha rede de suporte social e pessoal. Foi um verdadeiro trabalho de equipa e marca um dos pontos altos (verdadeiramente inesquecíveis) de 2014!

É curioso ver como as nossas expetativas são influenciadas pelas experiências e expetativas alheias… todos me diziam que as provas públicas de doutoramento, pela sua importância e solenidade, eram um momento de enorme tensão, de enorme pressão, até de sofrimento! Pois bem, graças aos meus providenciais orientadores, esse momento inesquecível foi acima de tudo um momento de alegria e enorme fruição intelectual, cuja recordação gratificante eu guardo, praticamente de todos os imensos minutos ao longo dessas mais de duas horas de épicas provas!

Por toda a experiência, paciência, sabedoria, confiança e amizade, o meu imenso obrigado à Adelinda e ao Nuno. Não poderia ter tido melhores orientadores e mentores. Espero ter-vos daqui para a frente como parceiros e patrocinadores de investigação. Como disse na defesa da minha tese, mal posso esperar para prosseguir nesta apaixonante auto-estrada do conhecimento científico .-)

Mas se 2014 foi profícuo em marcos significativos de realização positiva e com significado, foi também campo fértil para enormes deceções. E quando falo em deceções não falo em infortúnios. falo efetivamente em pessoas que nos desiludem completamente, que nos mostram como nos podemos enganar em absoluto relativamente aos valores e natureza moral de indivíduos com quem privamos, com quem nos relacionamos numa base regular ou numa base de enorme intensidade de partilha e/ou esforço conjunto.

Estou por isso a falar de deceção no sentido “telúrico” do termo. Aquele tipo de deceção que nos faz questionar a nossa capacidade de fazer juízos críticos, apreciações e valorações sobre os outros, tal foi a escala do engano em que nos deixámos cair. Estou a falar daquele tipo de deceção que nos faz sentir pequenos e irrelevantes, que nos faz sentir agoniados e mesmo com a sensação de que sofremos um enorme, imenso e implacável soco nos estômago, daquele que nos tira o ar. Conhecem a sensação? Pois é… não é nada agradável!

Ora bem, em 2014 esta sensação foi-me familiar algumas vezes… 

Curiosamente, a forma como decidi enfrentar esses momentos foi diferente da forma como os enfrentaria no passado. E esta evolução acabou por constituir quase uma surpresa para mim, e foi seguramente uma aprendizagem muito importante.

Há alguns anos atrás este tipo de deceção seria processado por via da raiva e do ressentimento. Teria sido fonte de um tipo de aprendizagem exclusivamente defensiva, num registo do tipo “aqui está o tipo de gente e o tipo de coisa com a qual nunca mais vou ser enganado”. E ficar-me-ia por aí.

Acontece que esta abordagem é curta e pouco saudável. Como todos os estudos sobre felicidade demonstram, a proliferação de sentimentos e emoções negativas enfraquece o nosso sistema imunitário, logo reduz potencialmente a nossa saúde e os anos de vida que nos restam. Por outro lado, a proliferação de sentimentos de raiva reduz fortemente o nosso potencial cerebral, o que limita o nosso discernimento e a nossa capacidade de aprendizagem. Sobre estes aspetos, já escrevi nos meus posts Gestão da Felicidade, Como (não) agatalhar a malta… e A Mente que nos Move.

Por isso mesmo, decidi lidar com estas deceções e com as pessoas que me dececionaram de forma diferente. Decidi que o foco seria no meu processo de crescimento e nas aprendizagens que poderia retirar daí. Perante as situações de deceção, habituei-me a uma disciplina férrea de reflexão e autocrítica que obedece ao princípio de responder (sempre) às seguintes questões:

  • o que podes aprender com esta situação?
  • o que podes fazer melhor no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves evitar fazer no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves continuar a fazer no futuro, mesmo com o risco de te voltares a dececionar?
  • que sentido podes atribuir a estes acontecimentos?
  • o que vais mudar desde já na tua atitude e nos teus comportamentos?
  • a quem deves agradecer no fim?

Este processo de autocrítica e reflexão tornou-se uma ferramenta essencial de resiliência e desenvolvimento para mim ao longo deste ano. Não só porque me ajudou a focar nos ganhos em vez de pensar nas perdas, mas também porque me ajudou a perceber as perdas como uma parte do meu processo de crescimento como ser humano.

Das diversas dimensões da perda, a mais dolorosa é certamente a perda de pessoas. Neste tipo de situação, a perda corporiza-se desde logo na imediata desvinculação com a pessoa que nos dececionou. Curiosamente, alimentar uma torrente de sentimentos negativos e de ressentimento relativamente a essas pessoas é uma forma de manter a ligação, o vínculo a essas mesmas pessoas, só que de forma negativa. É uma forma de não as deixar partir da nossa vida, num ato de (muitas vezes) involuntária saudade de tempos que não voltarão. E é acima de tudo uma forma muito pouco saudável de gerir expetativas, emoções e relações.

Se não nos libertarmos dos sentimentos negativos eles irão impedir-nos de progredir, de aprender,  mantendo-nos presos numa armadilha auto-induzida que nos desfoca do que é verdadeiramente importante. Andar ressentido é caminho certo para uma espiral de improdutividade e irrelevância. Acreditem, eu já o experimentei 🙂

Por isto mesmo, a última pergunta da lista assume uma crucial importância, pois aquilo que eu aprendi com estas deceções foi que o melhor processo de superação e de cura para estas situações é precisamente conseguir estar grato a quem nos dececionou. Porquê? Porque aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, como diz o ditado 🙂

Quando conseguimos aprender com base nas adversidades, tornando a deceção um degrau do nosso crescimento, perdoar a quem nos dececionou faz parte de um processo de regeneração emocional absolutamente essencial para sermos mais resilientes, para passarmos a ser portadores daquilo a que eu chamo uma “felicidade à prova de bala”.

É, no limite, a melhor forma de deixar partir da nossa vida aqueles que nos dececionaram.

Tal como a melhor recompensa está na dádiva, a melhor cura passa pelo perdão e pela prática da gratidão. E não é lamechice nem frase da moda: a ciência prova que isto é mesmo verdade…

… vamos experimentar?

Deixo-vos com um fabuloso vídeo da SoulPankake, que nos fala precisamente do poder da gratidão. Enjoy it 😉 … e façam o favor de ser felizes 🙂

Reflexões, Trends

A felicidade como motor do talento

Retomo hoje a escrita no Mentes Brilhantes aproveitando uma pausa entre comboios na Estação de Campanhã, hoje particularmente mais animada tendo em conta a renovação do título do FC Porto.

Aproveito este “mood” animado para falar de um tópico curiosamente pouco na moda nos dias de crise que vivemos: a felicidade.

Tenho trabalhado este tema nos últimos dois anos, ajudando pessoas e organizações a aumentarem o seu “rácio de felicidade” e a descobrirem novos sentidos para o que fazem na vida. Tem sido uma jornada apaixonante e motivadora, apesar de ser totalmente contra a “corrente negativista” que abala o nosso velho continente europeu e este cantinho à beira mar plantado em especial 🙂

Aquilo que a experiência me mostra é que está muito mais na mão de cada um de nós decidir o que fazer com o que a vida nos dá do que aquilo que incicialmente pensaríamos. Tenho visto isso acontecer com executivos, com equipas, com pessoas normais e mesmo até com pessoas muito próximas, em circunstâncias muito difíceis, para não lhes chamar extremas… e é impressionante o poder da vontade humana!

No seguimento desta minha reflexão, que já começou com o meu post “Gestão da Felicidade“, não quis deixar de partilhar convosco uma palestra brilhante, feita em 2009 pelo notável Vishen Lakhiani, CEO da MindValley, uma empresa em ascensão que é um modelo exemplar de como a felicidade pode ser usada como uma ferramenta para a produtividade.

Nesta (longa) palestra, que dura mais de 50 minutos, cada palavra é uma fonte de inspiração, valendo cada minuto de visionamento, pelo entusiasmo e lucidez com que Vishen nos conta a sua história e os resultados que atingiu.

O fundador do MindValley apresenta alguns conceitos novos, como o de flow:
Flow is the mental state of operation in which a person in an activity is fully immersed in a feeling of energized focus, full involvement, and success in the process of the activity.
Este conceito vem da psicologia positiva, e tem um apelo tão significativo e poderoso que hoje constitui um dos princípios fundacionais da minha própria empresa e da sua missão!
Vishen defende ainda que é preciso uma combinação entre ser feliz no presente e ter uma visão para o futuro. Seguindo este raciocínio, explica-nos que podemos encontrar-nos num de quatro estádios, a saber:
  1. infelicidade no presente & sem visão para o futuro: o mais negativo, em que a pessoa está perdida e deprimida;
  2. felicidade no presente & sem visão para o futuro: o estado de felicidade transitória, pouco sustentável, sem profundidade;
  3. infelicidade no presente & visão para o futuro: stress do presente, típico de um escravo do status quo;
  4. felicidade no presente & visão para o futuro: estado de total rendimento e energização;
Escusado será perguntar-vos qual o estádio que ele procura que os seus colaboradores vivam, certo? 😉 Esta definição destes quatro estádios faz-me lembrar outra autora que muito admiro, e que é arauta da disciplina do pensamento olímpico, que é a Marilyn King. Se não a conhecem, não deixem de espreitar o site 🙂
Vishen dá-nos ainda 10 recomendações práticas para aumentar a felicidade nas nossas organizações, retiradas directamente da sua experiência na MindValley:
  1. Agradecer diariamente: na MindValley, criaram uma página no site para agradecerem uns aos outros as ajudas que recebem (alargando o conceito a clientes, inclusivé!);
  2. Celebrar o que correu bem: ponto obrigatório nas agendas das reuniões, para celebrar os sucessos e as conquistas e as realizações;
  3. Partilhar os lucros com os colaboradores numa base mensal: como forma de criar comprometimento sustentado, por oposição à “febre dos resultados de curto prazo”, gerada pelas stock options;
  4. Sweet sugar love machine“: software que permite a oferta de pequenas prendas aos colegas e pares, como forma de fomentar o apreço entre colegas;
  5. Regra – 45/5: não se trabalha mais de 45 horas por semana, sendo que 5 dessas horas deve ser investida em aprendizagem e estudo (dentro ou fora da empresa);
  6. Partilha de conhecimento: criaram uma plataforma de partilha de conhecimento que permite que cada colaborador ensine alguma coisa aos outros colegas;
  7. Meditação em grupo – criaram o hábito de meditar em grupo regularmente, como forma de reflectir sobre o futuro e visualizar o mesmo, mantendo a cabeça “limpa”, serena e focada;
  8. Patrocínio do “fun” na comunidade – a MindValley patrocina festas da cidade, como o Halloween, procurando praticar para fora aquilo que é praticado para dentro, conseguindo atrair talento inesperado para a empresa pela forma “cool” como funciona e interage com o meio envolvente;
  9. Stamina positiva” – como explica Vishen, a disseminação de pensamentos positivos na abordagem dos problemas potencia a aprendizagem, dando enfoque à solução em vez de dar enfoque ao erro;
  10. Fomentar experiências e conexões – desenvolver um network activo e vivo, que enriqueça as pessoas. A ideia é aumentar o grau de exposição dos colaboradores a mentes brilhantes, que possam ajudar as pessoas a crescer.

Termino deixando para vosso deleite o vídeo da palestra do Vishen. Enjoy it! 😉

Reflexões, Trends

Gestão da Felicidade

O Mentes Brilhantes andou silencioso quase um par de meses, graças a uma agenda de trabalho que tem crescido a um ritmo quase tão avassalador quanto os juros da nossa dívida soberana!

Aos leitores do Mentes Brilhantes o meu pedido de desculpas, mas por vezes a realidade não-digital faz valer os seus argumentos 😉

Ao longo destes dois meses, entre as muitas coisas que fui fazendo, uma em particular mereceu para mim particular destaque e carinho. Estive a correr o país de Norte a Sul, ao serviço de um cliente meu, fazendo palestras sobre uma área de investigação/acção que tenho vindo a explorar em conjunto com outra colega minha: a gestão da felicidade.

Esta é uma área de investigação recente, em que uma das pioneiras é a Barbara Fredrickson, cujo contributo para a aplicação prática da gestão da felicidade nas nossas vidas pessoais, mas também na vida das organizações é absolutamente significativo e relevante!

Esta é uma área específica de aplicação da Psicologia Positiva, que aqui tenho referido frequentemente, e cuja relevância para o futuro de todos nós me parece inegável: todos almejamos a ser melhores pessoas, mais equilibradas e realizadas (faz parte da natureza humana)!

E curiosamente, os avanços da ciência nos mais variados campos (psicologia, neurologia, gestão, etc.) permitem hoje a cada um de nós, simples cidadãos do mundo, conhecer-nos a nós próprios e melhorar, desenvolvendo estratégias para sermos pessoas mais felizes.

E não falo da felicidade do consumo, que é uma das doenças deste século, a par do stress: falo isso sim da felicidade que deriva da capacidade que temos de descobrir o nosso sonho, a nossa missão de vida, o propósito que nos mobiliza e transcende.

Só depois de descobrirmos isso poderemos rever as nossas prioridades, e concentrarmo-nos nos aspectos da vida que são verdadeiramente relevantes, valiosos e inadiáveis para nós (e quantos de nós passam anos a adiar o que verdadeiramente vale a pena porque andamos muito ocupados a ganhar dinheiro para comprar mais um plasma de 50 polegadas…).

Depois de descobrirmos o que é realmente importante, temos de aprender a dizer não, optando pelo que verdadeiramente vale a pena, de forma inteligente e positiva, desenvolvendo a resiliência necessária para não nos desviarmos dos nossos objectivos.

Este passo tem de ser dado a par com a necessidade de descobrirmos os nossos pontos fortes, para que nos possamos concentrar neles e possamos brilhar. É o nosso talento que nos diferencia, e não a tentativa de sermos medianos em tudo, para não destoar dos grupos em que nos inserimos (pessoal e profissionalmente).

Assim, ser diferente não é mau, é apenas diferente! E se for uma diferença que nos permita ganhar vantagem competitiva, tanto melhor!

Assim se constrói a felicidade: fazendo uma caminhada de vida que nos permita chegar a um estádio onde fazemos o que verdadeiramente gostamos e somos recompensados por isso 🙂

E os estudos da Barbara Fredrickson vêm precisamente corroborar esta perspectiva! No seu livro Positivity, a autora revela-nos algumas descobertas interessantes, das quais destaco:

  • as pessoas felizes têm melhores desempenhos, ou seja, criam um chamado ciclo virtuoso. Ao serem mais positivas, interagem de forma mais positiva e potenciam a obtenção de melhores resultados mais facilmente, pois geram consensos e adesão com menos esforço;
  • as pessoas felizes ganham mais, ou seja, ao terem melhores desempenhos, têm maiores recompensas. Um estudo por ela feito ao longo de 14 anos comprova que as pessoas felizes podem ganhar mais 30% que as pessoas que o não são! Logo, o dinheiro não traz felicidade, mas a felicidade pode trazer dinheiro!!!
  • a felicidade atinge-se como estádio autónomo e constante a partir de um rácio de positividade de 3:1, ou seja, quando os pensamentos positivos superam os negativos no nosso quotidiano numa proporção de 3 para 1! Como o conseguimos? Praticando, praticando, praticando… mas sobre isso falaremos mais tarde.

Sobre a felicidade e a Barbara deixo-vos ainda uma peça do Sun com uma mini-entrevista à autora, bem como um vídeo da Barbara sobre emoções positivas.

Enjoy it e façam o favor de serem felizes 😉

Factos, Recomendações, Reflexões

Clube do Optimismo: incubadora de talento

optimism-784009Tomei contacto com o Clube do Optimismo através de uma peça do Diário de Notícias, intitulada “Aprender a Dizer Adeus a Maus Sentimentos“.

Confesso que ainda não tive tempo para me ir inscrever como sócio, mas a vontade de o fazer ficou, e o interesse pelo tema também 🙂

Fundado por Maria do Carmo e Manuel Oliveira, psicólogos clínicos, o clube tem por objectivo promover uma educação mais positiva, que aumente a auto-estima e a auto-confiança, desenvolvendo competências com base na crença do que somos capazes de realizar, e não no medo de falhar.

Este clube foi criado com base nos princípios da psicologia positiva, que defende o poder das emoções positivas no processo de aprendizagem e no desenvolvimento do talento, promovendo uma ética da felicidade no alcance do sucesso adaptativo.

O potencial desta abordagem, que tenho defendido ao longo do tempo e que a minha experiência comprova – cf. posts “Talentologia – parte II”  e “Inteligência Emocional na Gestão do Talento” -, tem sido também defendido por inúmeros amigos e companheiros de jornada, como por exemplo o Miguel Pereira Lopes – cf. a entrevista dele no DN Online, em que advoga a psicologia positiva como enabler da educação para o empreendedorismo.

A verdade é que esta corrente tem muito para dar à nossa sociedade e à forma (não) saudável como hoje procuramos ser competitivos. A verdade é que a nossa herança cultural nos formata para a obediência e conformidade ao poder, e sempre com medo das punições (ainda agora acabei de dar um berro ao meu filho Afonso, para que obedeça ao avô…), e praticar algo contrário a esta herança torna-se uma disciplina difícil – cf. o meu artigo “A Pesada Herança de Roma“.

Por isso mesmo quero inscrever-me rapidamente num dos cursos ou das workshops do Clube do Optimismo, que se destinam não só a crianças como a adultos, com reflexos positivos seja na educação que damos aos nossos filhos, seja na forma como interagimos com os nossos colegas, chefes ou subordinados (e vejam só a carga simbólica destas palavras, herdadas da nossa “cultura castigadora”!).

Deixo-vos assim alguns recursos adicionais sobre o Clube do Optimismo e a Psicologia Positiva. Enjoy it 😉 !

Positive Psychology Center

“Tristezas não pagam dívidas”

“O copo está meio cheio ou meio vazio?”

TED TALKS – Martin Seligman: What positive psychology can help you become

Reflexões

A inteligência emocional na gestão dos talentos

Este post surge da leitura do artigo do Ricardo Vargas na Executive Digest deste mês, intitulado “Emotional Process Management” (ainda não disponível no site da TMI, infelizmente).

Este artigo é uma peça magistral sobre a forma de liderar através das emoções, fazendo um paralelo muito interessante entre os dois estilos primordiais:

  • estilo “cajado” também conhecido como “gestão pelo medo”, autoritarismo, reforço emocional negativo, “gestão pelo trauma”, entre outros. Este estilo de liderança parte do pressuposto de que as pessoas devem obedecer cegamente à cadeia de comando e facilmente concluímos que também deve partir do pressuposto de que as pessoas são tendencialmente estúpidas ou desonestas, pois centra o seu focus no controlo e punição do erro, inibindo qualquer actividade criativa ou pensamento divergente;
  • estilo “cenoura” também conhecido como “gestão pelo incentivo”, reforço emocional positivo, “gestão construtiva”, entre outros. Este estilo, ao contrário do anterior, parte do pressuposto de que as pessoas são tendencialmente inteligentes e bem-formadas, temperando a autoridade com a capacidade de ouvir e aceitar ideias diferentes, agregando o seu valor para a prática corrente.

O Ricardo Vargas enaltece (como é natural e politicamente correcto) o segundo estilo, que é aquele que tendencialmente favorece a criatividade e a aprendizagem com o erro, obtendo maior retorno a prazo da actividade profissional.

Há razões culturais que explicam a prevalência do primeiro estilo – cf. o meu artigo “A Pesada Herança de Roma”  (bem como os meus posts “O Mito da Coerência Estratégica” e “A Falácia do Monte Olimpo“) -, mas para quem conheça minimamente o funcionamento básico do cérebro, torna-se também evidente que as descargas de adrenalina inibem a capacidade de pensar de forma produtiva.

Por outro lado, os contextos mais favoráveis à disseminação de talento são contextos de liberdade, onde o pensamento crítico e a criatividade se desenvolvem e são mais eficientemente aproveitados, numa fórmula ganhadora para ambas as partes e a longo prazo – cf. os meus posts “O Paradoxo de Ícaro” e “O Efeito Laplace na Gestão do Talento“.

Assim, não poderia estar mais de acordo com a posição do Ricardo Vargas.

Todavia, apesar de também defender esta perspectiva, certamente influenciada pela Psicologia Positiva e pela Inteligência Emocional, a verdade é que muitas vezes me interrogo sobre o que fazer em certas situações limite.

Na verdade, todas as boas práticas fazem sentido quando as coisas correm bem e as pessoas correspondem aos nossos estímulos positivos. Nesse contexto é fácil recorrer continuamente ao feedback positivo ou ao feedback construtivo, obtendo resultados incrementalmente melhores.

Mas, pergunto eu, e então o que fazemos quando o erro é reincidente? Continuamos a agir de forma “politicamente correcta”? Ou temos de ter um comportamento mais acutilante, em que manifestamente mostramos o nosso desapontamento ou reprovação face ao incumprimento, ao laxismo, à falta de atenção ou à simples repetição dos erros?

Será errado ou mau dar feedback negativo? Sinceramente, acredito que não.Porque acredito que o feedback negativo também pode ser construtivo, desde que nunca esqueçamos que estamos a lidar com pessoas que pensam pela sua cabeça e que merecem o nosso respeito.

Sobre este tema encontrei algumas peças fantásticas no blog da Kathryn Britton – “Positive Psychology Reflections“, que se debruçam sobre as técnicas de dar feedback positivo e feedback negativo.

Recomendo vivamente a leitura!

Por fim deixo-vos com um vídeo do Jim Clemmer sobre liderança e emoção: a não perder!

Enjoy it 😉