Reflexões

A Falácia do Monte Olimpo

A propósito do meu post “O Mito da Coerência Estratégica”, tive o prazer de ser contactado pelo autor citado – Desidério Murcho -, que muito gentilmente me disponibilizou um artigo por ele escrito e publicado no blog Crítica na Rede, sob o título “Acesso privilegiado à verdade” (a leitura requer subscrição).

Neste desempoeirado artigo, Desidério Murcho discorre brilhantemente sobre a (falsa) ideia feita de que há modos de acesso privilegiado à verdade. Esta falácia prolifera nos mais variados campos, como por exemplo a política, a religião ou mesmo a ciência.

A ideia de que há pessoas que, pela sua posição de superioridade (hierárquica, moral ou intelectual), são mais “donos da verdade” do que os outros, leva a que se crie uma falsa elite de “infalíveis pensadores” que raramente são contestados.

Nalgumas empresas isto também acontece, geralmente associado ao preconceito “saloio” da infalibilidade do líder – cf. o meu post “O Mito da Coerência Estratégica” -, geralmente derivado de um apriorismo resultante da subserviência ao poder – cf. o meu artigo “A Pesada Herança de Roma” -, que permite a quem lidera limitar as críticas, as contestações ou, pura e simplesmente, as perguntas difíceis ou incómodas.

Já algumas vezes assisti, ao longo dos meus quase 20 anos de carreira, à popular técnica de acabar uma discussão difícil, recorrendo à Falácia do Monte Olimpo: a frase lapidar é algo como “a decisão foi tomada por razões que se prendem com informação que não posso partilhar consigo” ou algo como “a informação que está na posse da Administração leva a que tenha sido tomada esta decisão”.

A Falácia do Monte Olimpo consiste assim na evocação do acesso privilegiado à verdade por parte de uma elite organizacional (Administração, Top Management, ou outra qualquer) que, quais deuses que habitam o dito Monte Olimpo, têm o direito “divino” de saber mais do que as outras pessoas.

Este modelo de gestão da informação funcionou muito bem até aos anos 70/80 do século passado. No entanto, com a revolução digital que vivemos, em que todos trabalhamos em rede e a informação flui à escala global numa lógica de disseminação “viral” (potenciada pelas redes sociais), tentar usar esta falácia é perfeitamente inútil: as pessoas acabam mais tarde ou mais cedo por saber o que lhes interessa, fazendo os seus julgamentos e questionando pertinentemente os seus interlocutores.

E ter responsabilidades no seio de uma comunidade de seres informados e inteligentes, que pensam pela sua cabeça, é um desafio de muito maior exigência…

… vamos a isso? 😉