Reflexões, Trends

Folclore vs. Prática… ou a “gamificação” do mérito

entire-team-jumpingSurge este post da leitura de um interessantíssimo artigo da HBR Working Knowledge, chamado “How to Demotivate Your Best Employees“.

Este artigo aborda a prática dos chamados prémios de mérito, cujo exemplo mais conhecido é o “Empregado do Mês”. Este tipo de iniciativas são desenvolvidas nas organizações com o propósito de estimular o mérito, de promover comportamentos virtuosos, mas nem sempre é isso que acontece…

As conclusões do artigo baseiam-se num estudo feito pelo Professor Ian Larking, de Harvard, que foi analisar práticas deste tipo em contexto real.

O caso descrito é emblemático: numa unidade industrial, foi estabelecido um prémio mensal, convertido num gift card de USD 75 $, para os empregados que tivessem a melhor assiduidade e pontualidade. Após vários meses de aplicação deste programa, e depois de primeiros resultados animadores, acabou por se concluir que, a prazo, se tinha gerado um efeito de boomerang: a produtividade baixara 1,4%, gerando perdas financeiras!

O que levou a tal resultado? Aquilo a que eu chamo a “gamificação” do mérito.

Muitas vezes há a tentação de usar o ímpeto competitivo para gerar mais drive na performance dos colaboradores. Aquilo que é um princípio correcto se visto de forma abstracta e conceptual, pode todavia ter efeitos perversos quando mal aplicado na prática…

No caso em estudo, houve dois erros básicos que foram cometidos:

  • Criou-se uma competição relativa ao atingimento de algo que já devia ser “business as usual”;
  • Aliou-se à competição um prémio (o que está certo), explicitando o seu valor monetário (o que é um erro crasso neste caso);

Vejamos porque é que isto foi um erro: no primeiro caso, banalizou-se a meta a atingir, transformando em mérito algo que devia constituir um standard básico da performance (a pontualidade e a assiduidade). Ao fazer isso, os colaboradores que já eram pontuais e assíduos há muito tempo, sentiram-se desvalorizados, ao constatarem que os seus colegas menos cumpridores iam agora ser elegíveis para um prémio que recompensava aquilo que eles já faziam naturalmente há muito tempo – aquilo a que eu chamo a “mercenarização simbólica” do mérito, para efeitos de folclore institucional.

No segundo caso, criou-se uma competição centrada no prémio monetário, em vez de se focar nos comportamentos virtuosos. Ao “gamificar” o mérito desta forma, os colaboradores a certa altura especializaram-se em encontrar formas de “driblar” as regras da competição, ou seja, de chegar ao prémio com o menor esforço possível!

O Professor Larking não deixa de enunciar práticas virtuosas de premiar o mérito, nomeadamente:

  1. Fazê-lo de forma retrospectiva, dando reforço positivo ao que foi bem feito, por iniciativa e profissionalismo do colaborador, e não por efeito de uma “gamificação”;
  2. Fazê-lo de forma simbólica, oferecendo uma recompensa que, mesmo que possa ser tangibilizada, é apresentada sem explicitar o seu valor monetário, que mata o seu valor simbólico;
  3. Fazê-lo de forma adequada e pertinente, premiando performances verdadeiramente excepcionais, e não premiando aquilo que deverá ser o standard de cumprimento básico de um profissional.

Deixo-vos com um vídeo sobre a Vistaprint, que testemunha como uma meritocracia pode funcionar…

Enjoy it! 😉