Reflexões

Elevação: o talento também tem um imperativo moral…

Surge este post de um artigo de opinião do genial Francesco Alberoni, intitulado “A boa gestão foi suplantada pelos interesses privados”.

Neste artigo, Alberoni faz uma reflexão sobre o potencial de criação de valor que se poderia aproveitar quando há o devido alinhamento entre a liderança, a organização e a gestão.

Dissecando o que deverão ser as práticas virtuosas nas três dimensões referidas, Alberoni acaba por destacar a importância da genuinidade de quem proclama uma visão, da resiliência de quem a implementa, bem como da elevação que o exercício da gestão exige, sobrepondo o bem comum ao ganho individual (o que leva ao repúdio das “hidden agendas” de certos gestores, mais preocupados com a gestão do poder nas empresas) – cf. o meu post “Inteligência Emocional na Gestão dos Talentos“.

Uma gestão virtuosa, produto do exercício de um líder talentoso, obedece pois também a este imperativo moral, que gera o reconhecimento necessário para que haja uma boa “seguidança” 🙂

Votos de boa leitura 😉

Reflexões

Referenciação e Transparência

Surge este post da leitura do meu amigo David Veloso, que, no seu blog Notas e Pensamentos, escreveu uma interessante peça sob o título “A importância da referenciação”.

Apesar do mote da nota dele ser um tema da actualidade político-jurídica deste cantinho à beira-mar plantado, o que retive da mesma foi naturalmente a interrogação sobre o aparente paradoxo: se procuro os mais competentes para uma determinada posição profissional, porque é que recorro à referenciação como forma de filtragem? Não é objectiva e potencia as “cunhas” e os favores…

Recomendo vivamente a leitura do post do david. Logo aí perceberão que o que referi no anterior parágrafo é a minha interpretação do post dele, e não necessariamente o que lá está escrito. Como o vejo sempre como um acutilante crítico social e um óptimo inquietador de consciências, provavelmente exagerei na minha interpretação, e fiz leitura selectiva.

Todavia, seja ou não essa a questão que o David queria colocar, a verdade é que foi essa a questão que se me colocou quando li o seu post: como conciliar a referenciação com a transparência?

Antes de mais, para entendermos como o podemos fazer, há que voltar à questão inicial: se procuro os mais competentes para uma determinada posição profissional, porque é que recorro à referenciação como forma de filtragem? Não é objectiva e potencia as “cunhas” e os favores…

Pois bem, a resposta a este aparente paradoxo chama-se confiança. De facto, mais do que qualquer bateria de provas que possa predizer o sucesso futuro de um candidato para uma determinada posição, a maioria das pessoas, em caso de igualdade de circunstâncias entre vários possíveis escolhas, tende a optar por alguma que lhe ofereça a segurança de ser recomendada por alguém de confiança. Porquê? Por causa da responsabilização inerente à recomendação.

Que quer isto dizer? Que quem recomenda uma pessoa ou entidade, ao fazê-lo compromete o seu bom nome na recomendação, ou seja, compromete o seu futuro com a pessoa a quem recomenda, com base no princípio da reciprocidade.

Isto leva a que a tendência seja para o cuidado redobrado por parte de quem recomenda, excepção feita para quem o faz com objectivos pouco éticos (fraude, corrupção e outros objectivos similares).

Por isso, os incompetentes têm tendencialmente poucas pessoas que os recomendem e os talentosos vêm aumentar continuamente o range das pessoas que estão dispostas a atestar a sua qualidade. É mais uma vez um princípio de mercado que está fortemente ligado ao princípio da reciprocidade e às boas práticas de transparência.

Um bom exemplo do que é referenciação de qualidade e responsável é o LinkedIn. Nessa rede social, cada pessoa pode expôr referenciações (endorsements) feitas por pessoas que se dispuseram voluntariamente a fazê-lo, associando publicamente o seu bom nome ao do profissional que referenciam.

Na prática, estas são as referenciações mais potentes e eficazes no futuro, as que resultam de um social networking transparente e auto-regulado.

Sobre este tema (social networking) não deixem de consultar o estudo da faberNovel Consulting.

Enjoy it 😉

Reflexões

Management Fashion: que Steve Jobs nos inspire…

manag_fashionSurge este post de uma pequena provocação do meu amigo David Veloso, que me mandou um brilhante post por ele escrito no seu blog Notas e Pensamentos, cujo título é “O custo da inoperância“.

Este é um post extremamente bem escrito, que nos cai em cima como um balde de água fria. Fria de realidade, por mais agreste que a mesma pareça.

E por vezes necessitamos desse “choque térmico intelectual”, para não nos esquecermos do longo caminho que ainda há a percorrer.

Procuro passar neste blog uma mensagem pedagógica e de esperança. Todavia, a verdade é que muito do que defendo ainda está por acontecer nas organizações portuguesas  (e não só…).

O David começa por enumerar o clássico problema das “agendas individuais”, que minam muitas vezes a necesária genuinidade empresarial. Tal acontece, na minha opinião, porque a maioria das nossas organizações ainda não percebeu a verdadeira importância de trabalhar com as pessoas e não contra elas – cf. meu post Marx e o talento -, o que em parte deriva de ainda trabalharmos num verdadeiro paradigma de poder e não de colaboração – cf. meu artigo A Pesada Herança de Roma.

Enquanto os nossos líderes (e também os nossos liderados) insistirem em ver o mundo pelos óculos da Revolução Industrial, dificilmente poderemos ambicionar a um estádio mais avançado das organizações, em que a meritocracia prospere e a comunicação seja feita com transparência, sem o recurso (imoral) a consultores para fazerem o trabalho menos simpático.

Este é aliás um tema que me passou a ser particularmente caro, seja pelos 3 anos que passei no Comité Executivo de uma multinacional de consultoria, seja pelo facto de hoje ser Partner de uma consultora. E, de facto, há vários usos possíveis (virtuosos e menos virtuosos) para os consultores:

  • o primeiro, tal como o próprio nome indica – consultor – diz-nos que ele serve para ser consultado 🙂 ! Isto significa colocar o seu conhecimento ao serviço de uma determinada organização, para resolver um determinado tipo de problema. Esse conhecimento ou é sectorialconhecimento de um negócio, mercado ou sector de actividade -, ou é funcionalconhecimento de um determinado processo, metodologia ou framework de trabalho. Todavia, seja num caso ou noutro, deve ser posto ao serviço da criação de valor;
  • o segundo, passa pelo uso não virtuoso dos consultores, que servirão para procrastinar uma decisão (adiando-a até à apresentação de um estudo infindável e inconclusivo que serve para acabar de vez com o processo de tomada de decisão), ou para a justificar internamente (no caso de decisões difíceis e impopulares, em que os consultores fazem de “bode expiatório” para o qual o odioso do tema é transferido).

Naturalmente que defendo intransigentemente o primeiro uso, e repudio de forma igualmente intransigente o segundo uso. Repudiei-o enquanto executivo, ao contratar serviços de consultoria, e repudio-o igualmente enquanto empresário, recusando-me a vender serviços para esse fim.

A consultoria é uma actividade nobre, pilar da actual economia do conhecimento, e deve, em particular no nosso país, ser dignificada e colocada no lugar de prestígio que merece!

… mas claro que isso só se consegue através do exemplo que todos os consultores terão (e deverão) dar, todos os dias, através de uma prática profissional exigente (e eticamente intransigente)!

Sim, porque isso da ética não é apenas uma buzzword dos tempos que correm, mas um imperativo incontornável dos negócios modernos – cf. o meu post Da ética das empresas.

Assim, como diz o David e muito bem, deveriam as empresas ligar menos às modas da gestão – um verdadeiro fenómeno de management fashion -, de forma a deslumbrar-nos menos com discursos vazios mas elegantes, assumindo uma postura mais espartana, de verdadeira gestão pelo rigor e pelo respeito, em que a ética da implementação prevaleça sobre a mera gestão de expectativas, da qual o exemplo mais gritante é a perspectiva redutora de que gerir o talento é apenas gerir sucessões: quem conheça pessoas verdadeiramente talentosas sabe que não é assim – cf. meu post O Paradoxo de Ícaro -… e sabe dos riscos de termos nas nossas organizações um imenso potencial por explorar

Ao David o nosso muito obrigado por mais este banho de reflexão: não poderíamos estar mais de acordo! Todavia termino com uma mensagem de esperança: o caminho é para a frente e o progresso (virtuoso) é inevitável numa economia de mercado livre, como Steve Jobs tão bem nos ensina com a sua lição de vida, demonstrando que se pode criar valor com a ética de implementação de que vos falava (o que não impede a Apple de ser uma empresa sexy 😉 !)

Reflexões, Trends

Controlholics: Produtividade e Marx… ou como matar o talento

brainsfullpotentialSurge este post da leitura de outro post, neste caso do Rui Grilo que, no seu blog Ideias em Série, nos fala do chamado Choque de Gerações.

Este é um post que vale mesmo a pena ler, pois evidencia como pode ser ridícula hoje a tentação controleira que alguns gestores têm nas suas organizações, traduzida por atitudes como a proibição do acesso a sites de redes sociais a partir dos pc’s de cada colaborador.

Este tipo de atitudes, típica  do tempo da Guerra Fria, em que a luta pela informação, mesmo a nível da competição industrial, era visto como uma arma estratégica, torna-se hoje risível a nível organizacional, pelos seguintes motivos:

  • a pretexto da defesa da produtividade, está-se de facto a controlar o acesso e difusão de informação, o que coloca desde logo dois problemas:
  1. a falta de seriedade argumentativa, pois o pretexto “oficial” não é muitas vezes o pretexto real, o que faz com que se estejam a tratar os colaboradores como pessoas tendencialmente estúpidas ou desonestas;
  2. a falta de lógica do próprio argumento, pois hoje em dia a produtividade de cada vez mais actividades depende do acesso à informação, da troca de informação e da capacidade de estarmos ligados a pessoas relevantes a quem podemos pedir colaboração.
  • a táctica é perfeitamente inútil: se as pessoas se quiserem ligar acabam por fazê-lo de outras formas (quem hoje não tem acesso a um laptop e a uma conexão 3G?) e a informação flui na mesma;
  • o comportamento é historicamente desadequado: como o Rui Grilo tão bem expõe, as novas gerações já nascem e crescem num contexto digital, de conexão e em que as redes são extensões naturais das suas ferramentas de trabalho.

Importaria pois entender esta tendência e ajustar as práticas de gestão às mesmas, procurando criar uma ética de responsabilidade, em vez de uma prática de policiamento (ver sobre este tópico o meu artigo Falsos Dilemas Éticos nas Empresas).

Parte da potencial explicação desta tendência  – a que escolhi chamar controlholics, pois denuncia um comportamento compulsivo de controle – deriva da incapacidade de alguns gestores saírem fora dos (pre)conceitos aprendidos por alturas da sua formação, em que o paradigma marxista das relações de trabalho ainda imperava (cf. o meu post Marx e o talento), gerando desta forma um efeito destruidor de talento, potencialmente fatal para a competitividade futura das organizações (cf. O Paradoxo de Ícaro).

Votos de boa leitura e reflexão 🙂

Reflexões

Da ética das empresas…

99004-35Tive oportunidade de ler um excelente post no blog De Rerum Natura, sob o título “A empresa é intrinsecamente amoral?“.

Neste post discute-se a hipótese das organizações empresariais serem, por definição, entidades amorais, pelo que a ética nos negócios tenderá a ser uma prática que deve ser defendida e imposta pelos homens ou pelos dirigentes, contra aquela que seria a tendência “natural” das empresas.

Confesso que tendo a ter uma perspectiva diferente, por várias razões:

  • porque as empresas são feitas de pessoas e para pessoas, pelo que não entendo que uma entidade abstracta possa tender para a amoralidade, se, no seu conjunto, é composta por um conjunto de seres intrinsecamente morais;
  • porque o fim último das empresas não é fornecer lucro ao accionista, como é dito no texto. O fim último das empresas é satisfazer uma qualquer necessidade da sociedade, sendo que a obtenção do lucro é uma condição essencial de sobrevivência, logo um imperativo ético das empresas;
  • porque, no limite, o mercado é feito de pessoas que, sendo seres morais, tenderão a recompensar as empresas que se comportam de forma eticamente correcta, penalizando aquelas que não o fazem (veja-se a reacção geral suscitada face aos recentes abalos provocados pela crise financeira mundial).

Sobre este tema sugiro a leitura do meu artigo “Business Ethics“, bem como a leitura de um interessantíssimo estudo do Corporate Leadership Council, intitulado “Driving Performance and Retention Through Employee Engagement” onde se evidencia que o comportamento ético e a integridade são factores críticos no commitment dos colaboradores, logo um enabler importantíssimo da gestão dos talentos.

Votos de boa leitura 😉

Reflexões, Trends

Capitalismo Criativo

Um recente artigo da Harvard Business School despertou-me o interesse sobre o tópico de hoje: capitalismo criativo.

O conceito torna-se objecto de forte discussão pública desde o famoso discurso de Bill Gates, feito em Janeiro passado no World Economic Forum, em Davos.

Nesse discurso, Gates afirma, no seu polémico estilo, que muitos dos grandes problemas mundiais não podem ser resolvidos através de filantropia, mas requerem em alternativa que as empresas e o mercado livre contribuam de uma forma nova para os resolver: daí o nome de “capitalismo criativo”.

Segundo o artigo da HBS, esta nova tendência cruza os ganhos financeiros com a contribuição social, num mundo que está em forte mudança, e em que as tendências são radicalmente diferentes das que vivemos num passado recente.

São cinco as grandes forças que levam ao emergir do capitalismo criativo, a saber:

  1. Recursos – actualmente, as empresas e o mundo dos negócios em geral são a maior fonte de recursos mobilizáveis para a resolução dos problemas de forma eficaz, a larga distância do Estado, das ONG’s ou das organizações religiosas;
  2. Procura – existe uma cada vez maior força de potenciais consumidores, cidadãos, votantes, líderes de opinião para quem a postura ética e a responsabilidade social são drivers de escolha e recomendação (o que vai de encontro ao que defendi no meu artigo Business Ethics). Por outro lado, existe um imenso mercado potencial de pessoas com poucos recursos, que necessitam de uma oferta específica para as suas necessidades. O exemplo mais marcante desta tendência é precisamente o fenómeno do microcrédito, que referenciei noutro post, em que se concede crédito a quem não tinha a ele acesso, devolvendo ao circuito do mercado milhares de empreendedores e futuros consumidores.
  3. Modelação Corporativa – a forma como as organizações se moldam e interagem entre si está a mudar radicalmente. Redes, colaboração e conectividade são buzzwords que simbolizam o quebrar das barreiras tradicionais (geográficas, organizacionais, legais). Sobre este tema já escrevi nos meus posts Web 2.0: a competitividade pós-capitalista e Inovação Colaborativa.
  4. Transparência – uma geração de novos cidadãos e consumidores globais e exigentes, cada vez mais informados online numa comunidade de conectividade permanente, exigem uma gestão cada vez mais ética e transparente, especialmente após os escândalos da Enron (cf. Business Ethics).
  5. Exemplo Inspiracional – cada vez mais pessoas valorizam líderes e organizações com valores, com uma conduta moral irrepreensível e inspiradora, com uma visão de longo prazo, que faça crescer quem os rodeia. No fundo, o grau de desafio e inspiração que refiro no meu post O Paradoxo de Ícaro.

No artigo da HBS, reforça-se o emergir destas tendências com os exemplos de companhias como a Southwest Airlines, a Google ou a Starbucks, que estão orientadas para satisfazer as necessidades de um vasto leque de stakeholders, que não apenas os accionistas. Um recente estudo demonstra que estas companhias cresceram em ROI cerca de 10 vezes mais que as companhias do S&P 500!

Para quem esteja interessado em aprofundar este tópico, recomendo o blog Creative Capitalism, que é uma fonte riquíssima de pensamento e informação.

Deixo ainda aqui dois vídeos de Bill Gates. O primeiro, breve (5 mins.), explica rapidamente o conceito de capitalismo criativo. O segundo, longo (+ 30 mins.), reproduz integralmente o discurso de Davos.

Enjoy it 😉

Recomendações

4 Horas por Semana…

Comprei um livro que me tinha sido recomendado por um amigo aqui há um par de meses.

Revelou-se uma surpresa melhor do que a encomenda: chama-se “Quatro Horas Por Semana”, escrito por Tim Ferriss, e vem revolucionar completamente a nossa noção de sucesso e empreendedorismo.

Esta obra é uma pedrada no charco porque faz com que a ética protestante do trabalho deixe de ser um fim em si mesmo (como hoje vulgarmente é na nossa matriz de valorização social) para passar a ser um meio para alcançar a felicidade, como foi aliás originalmente concebida por Calvino e por Lutero.

O racional é simples: o trabalho continua a ser o veículo para alcançarmos a felicidade, numa acepção do ser humano que passa pela sua capacidade de realização como factor de afirmação pessoal e valorização social. Todavia, o trabalho não é um fim em si mesmo que, cegamente, se defina qualitativamente apenas pelo volume.

O trabalho vale não pelo esforço mas sim pelos resultados, como qualquer bom empreendedor sabe. Logo, o que o autor propõe é que o trabalho seja optimizado pela inteligência de potenciar os talentos em vez de ser exaurido pelo esforço de tranformar as fraquezas em capacidades meramente sofríveis.

Assim, a optimização de resultados passa pelo focus nos nossos talentos, que serão os verdadeiros factores diferenciadores e as alavancas de vantagem competitiva de cada um de nós.

Para ilustrar esta filosofia, o autor dá vários exemplos de negócios possíveis que cada um de nós poderia lançar, e que fariam com que, trabalhando apenas 4 horas por semana, maximizássemos exponencialmente os nossos rendimentos.

No mínimo, uma leitura sedutora 🙂