Reflexões, Trends

PPE: Potencial Por Explorar ou como evitar o “efeito MINSD”

unused_potentialSurge este post da leitura do excelente artigo que o Bruno Cota publicou no Diário Económico, sob o título “Encostado ou não?“.

Este artigo foca um fenómeno que grassa nas nossas empresas há muitos anos, e que assume particular relevância nos tempos que correm: aquilo a que eu chamo o PPE (Potencial Por Explorar). O que é isto? Simples: é todo o valor que deixamos de criar por não estarmos a aproveitar bem o potencial das pessoas que temos dentro da nossa organização.

Este tema torna-se especialmente pertinente nos tempos de crise endémica que vivemos, em que as empresas não se podem continuar a dar ao luxo de olhar para o talento com um bem escasso, que têm de comprar caro. Nos tempos que correm, é bom que as empresas tenham a capacidade de gerar e desenvolver talento dentro de casa, recorrendo aos colaboradores que já com elas colaboram. Esta é curiosamente, uma lógica económica de abundância que emerge num contexto de forte contracção!!!

Este contexto de adversidade representa, neste domínio, o prenúncio de potenciais boas notícias, uma vez que acredito convictamente que em muitas organizações, por força de várias circunstâncias que a seguir enumerarei, a verdade é que se tendia a desperdiçar recursos e energias, por força de práticas de gestão menos exigentes e rigorosas, em que se obtinha muito pouco valor dos activos humanos disponíveis.

Como o Bruno Cota bem evidencia, muitas organizações têm no seu seio muitas pessoas “encostadas”, com pouco que fazer, ou sub-aproveitadas, ou alocadas erradamente às tarefas e missões erradas. E isto porquê? Por várias razões, das quais destaco:

  • o facto de muitas organizações se continuarem a reger por uma lógica de poder, em vez de se regerem por uma lógica de realizações e mérito, favorecendo a “politiquice” e matando o empreendedorismo – cf. o meu artigo “A Pesada Herança de Roma“;
  • o facto de, em muitas empresas, os gestores não estarem minimamente habilitados a gerir pessoas, tendo sido promovidos acima do seu patamar de competência, e alavancando a sua autoridade na sua competência técnica em vez de desenvolverem competências de liderança – cf. o meu post “Primus Inter Pares“;
  • a lógica “marxista” de luta de classes, que afecta não só o mindset de muitos trabalhadores, mas também o quadro referencial relacional de muitos gestores portugueses – cf. o meu post “Marx e o Talento“;
  • pelos motivos atrás enunciados, muitos gestores não apostam numa gestão transparente e genuína, que possa ser mobilizadora das vontades individuais, indispensáveis para activar o conhecimento que cada um de nós possui, e que decide ou não (todos os dias!) colocar ao serviço da organização onde trabalha – cf. meu post “Genuinidade Empresarial“;
  • a gestão de curto prazo e o imediatismo, resultado da pressão cada vez maior para resultados “instantâneos”, que criou toda uma geração de “gestores apressados” – cf. o meu post sobre o Efeito Laplace.

Poderia certamente continuar a enunciar motivos durante bastante mais tempo, mas basicamente eles andam sempre à volta da mesma questão: acreditamos ou não no potencial humano que temos na organização? Estamos ou não genuinamente apostados em criar valor aproveitando esse potencial, ou, ao invés, apenas nos interessa a nossa “agenda privada” de poder e ascenção?

Esta é uma questão fundamental, que nos faz evoluir de uma lógica de gestão do capital humano “à la Real Madrid”, em que só investimos em alguns poucos (as estrelas), acreditando que esses garantirão os resultados, para uma nova lógica “à la Mourinho”, em que todos têm um potencial que pode ser activado, fazendo com que pessoas a priori consideradas “normais”, sejam capazes de gerar resultados extraordinários (conforme aliás defendi no meu capítulo do livro Inteligência Humana).

Como o Bruno bem relembra, basta se calhar cada um de nós perguntar-se o seguinte: quantos trabalhadores “seniores” temos dentro de casa, dos quais se calhar já desistimos a priori por preconceito e ideias feitas?

A minha experiência confirma-me que, na maioria dos casos, as pessoas são como o vinho do Porto: melhoram com a idade 🙂 – cf. o meu post “O Talento não tem Idade“.

Nós se calhar é que nos desabituámos a ver o valor intrínseco a uma pessoa com uma história de vida mais longa e rica, que, fazendo perguntas mais difíceis, nos obriga a um exercício de liderança mais exigente…

… e confundimos espírito crítico com teimosia ou resistência à mudança, o que nos faz muitas vezes “desistir” cedo de mais das pessoas.

Por tudo isto, corremos o risco de gerar nas empresas pequenas multidões de colaboradores que estão naquilo a que eu chamo o “estado MINSD“, ou seja, colaboradores que fazem o Mínimo Indispensável para Não Serem Despedidos 😉 !!!

E a pergunta que se impõe é: queremos ter colaboradores no estado MINSD nas nossas organizações? Podemos dar-nos a esse luxo???!!!

Obrigado e parabéns ao Bruno Cota por lançar a “pedrada no charco”!

Votos de boa reflexão 😉

Trends

Google Chrome: architectural advantage em construção!

Este meu post surge como resultado da troca de impressões gerada pelo meu último post Architectural Advantage

Mal eu tinha publicado o post, já o meu amigo Pedro Rebelo comentava que a Google, ao lançar o seu novo web browser – o Google Chrome – estava a demonstrar como se aplicava o conceito de architectural advantage, ao inovar de forma colaborativa, mudando as regras e gerando uma nova arquitectura de criação de valor, em que a Google, não detendo todas as partes da equação, no entanto garantiria a apropriação da maior fatia de valor acrescentado.

Foi uma coincidência engraçada, pois quando o Pedro colocou esse comentário no meu post, eu estava a acabar de instalar o Google Chrome na minha máquina, e estava precisamente a comprovar aquilo que o Pedro, sem ter ainda experimentado, tão bem estava a antecipar!

De facto, o Google Chrome representa uma ruptura com o conceito de navegação web que conhecemos.

Porquê? Porque pela primeira vez temos um web browser que, em vez de estar focado na navegação na web, está acima de tudo focado nas necessidades dos utilizadores que acedem à Internet

E isto, apesar de parecer uma diferença subtil, faz toda a diferença! Vejamos alguns exemplos:

  • Barra de endereços – esta barra, onde habitualmente tínhamos de escrever o endereço para onde queríamos navegar, deixou de ser um “serviço postal cego” para ser uma espécie de “DHL dinâmico e personalizado”, uma vez que cruza a funcionalidade de barra de endereços com a funcionalidade de barra de pesquisa, sugerindo dinamicamente endereços similares às palavras que digitamos (sejam resultado de navegações passadas ou não), bem como pesquisas a efectuar no motor de pesquisa que tivermos assumido por default para o Chrome (sim, ao contrário do que faria a Microsoft, a Google não nos obriga a pesquisar na Net através do Google, deixando-nos escolher livremente!);
  • Rapidez – a velocidade do Chrome é impressionante, sendo notória a diferença de velocidade para outros browsers, segundo a Google devido à aposta no “acelerar” das aplicações Java que correm no Chrome;
  • Estabilidade e Segurança – o facto de, no Chrome, cada tab correr de forma independente, faz com que o utilizador, ao aceder a alguma tarefa pesada ou a algum site com muito tráfego, não veja comprometido todo o seu trabalho, sofrendo um crash global do browser. No máximo, apenas o tab afectado sofre o crash, podendo ser fechado sem prejudicar os outros tabs abertos. Também esta filosofia, em termos de segurança, apresenta uma arquitectura mais robusta, pois ao aceder a um site com conteúdo malicioso, o mesmo não se pode espalhar para lá do tab aberto. Para além disso, o Chrome tem uma lista negra permanentemente actualizada, que avisa o utilizador se tentar aceder a algum domínio considerado malicioso. Também a privacidade está garantida através do modo de navegação “incógnito” (vejam o vídeo no fim do post);
  • Integrabilidade e Lógica Aplicacional – no Chrome, podemos aceder a aplicações Web (como o Google Docs ou o Webmail) e convertê-los numa janela aplicacional independente, que corre como se fosse um programa instalado no computador. Podemos criar shortcut’s para as aplicações, e o Chrome abre uma janela aplicacional em vez do browser. Também se torna fácil arrastar um ficheiro para dentro do Chrome, que se abrirá com a aplicação correspondente. A sincronização com os bookmarks e settings dos outros browsers é também uma funcionalidade utilíssima, facilitando a migração das nossas preferências web. Só falta mesmo o Chrome ter uma funcionalidade semelhante ao Foxmarks, que permite ao Firefox sincronizar os nossos marcadores online, seja qual for o computador no qual acedemos ao browser (o que simplifica muito a vida de quem tem de trabalhar em muitos sítios diferentes e com máquinas diferentes!). Fica aqui a sugestão :-);
  • Escalabilidade evolutiva – ao ser uma aplicação open source, a sua evolução será exponencial, à medida que a comunidade de desenvolvimento aderir a esta plataforma. O número de aplicações será muito superior àquele que seria gerado apenas pela Google Labs, criando massa crítica para a sua universalização. Este tipo de inovação colaborativa irá gerar prosperidade a uma vasta comunidade de desenvolvimento, reforçando todavia a competitividade da Google face a outros players como a Microsoft, o que fará com que a sua apropriação de valor seja potencialmente muitíssimo elevada;

Estes são apenas alguns dos aspectos que fazem com que o Google Chrome seja uma verdadeira pedrada no charco, pois despoleta um novo conceito de produtividade com base na Web, potenciando verdadeiramente a Web 2.0 como a nova plataforma de colaboração e trabalho no século XXI. 

A Microsoft tem de questionar-se seriamente sobre o futuro, pois parece cada vez menos evidente que no futuro estejamos a usar o Internet Explorer ou o Office, pagando licenças por produtos que evoluem mais devagar, são mais sujeitos a ataques informáticos e que nos obrigam a pagar pelas suas novas versões

A era dos produtos offline e proprietários pode estar a chegar ao fim. Resta saber como os modelos de negócio nas TI serão então reinventados… 

… uma era de oportunidades para quem tenha talento 😉 

Deixo-vos dois vídeos: um explicando como o Google Chrome surgiu, e outro explicando dez das mais apetitosas características do Chrome. 

Try & enjoy it 🙂


 

Reflexões, Trends

Architectural Advantage: inovação e competitividade numa economia em rede

Recebi hoje um paper oriundo da London Business School, da autoria do Professor Michael G. Jacobides.

Este paper fala-nos do conceito de architectural advantage, ou seja, a capacidade de controlar uma indústria sem sequer ter de adquirir uma parcela significativa da mesma.

Este conceito emerge com a recente evolução económica global, em que constatamos que a prosperidade das empresas não depende apenas delas mesmas, mas sim de uma vasta e subtil rede de interdependências económicas e empresariais, ou seja, de um ecossistema empresarial.

Fenómenos recentes como a crise do sub-prime ou a emergência do outsourcing e do offshoring são exemplos de como esta dinâmica de interdependência pode ter efeitos à escala global, provocando mudanças radicais na forma como as economias evoluem e as empresas trabalham e se relacionam entre si, gerando novos modelos de criação de valor.

A competitividade hoje não depende só da capacidade de inovar no produto ou no processo, mas sim de determinar quem faz o quê e quem ganha o quê na cadeia de valor.

A recente relevância dos produtores de conteúdos na indústria da telefonia móvel é um caso evidente de como novos players podem emergir subitamente, e ter uma prosperidade á escala global absolutamente inesperada. Veja-se o caso da portuguesa Tim.We, que em pouco tempo se tornou num player mundial em conteúdos para telemóveis.

Outros exemplos podem ser dados, e que são exemplos de como empresas podem condicionar todo um sector de actividade, não porque o detenham, mas porque inovaram de forma radical, colaborativa e mudando as regras do jogo, navegando para mercados não saturados.

Veja-se o exemplo da Google, ao avançar com um sistema operativo para telemóveis – o Android. Aparentemente, estaria a entrar num mercado saturado. Todavia, ao lançar o primeiro sistema open source para telemóveis, está a criar as bases para toda uma nova plataforma colaborativa de desenvolvimento de software (cf. Inovação Colaborativa), que irá mudar completamente as regras do jogo na indústria da telefonia móvel.

Ao mudar as regras do jogo (cf. Game Changing Strategies), está a criar uma nova arquitectura de negócio, em que uma nova rede de empresas interage de forma nova, podendo a Google apropriar-se dos segmentos da rede que irão ter mais valor. Ao fazer isto apropria-se de mercados ainda por explorar, numa estratégia “blue ocean“. É isto pois a architectural advantage: gerir a inovação colaborativa, numa lógica de mercado e não de empresa. E isto exige uma lógica de empreendedorismo e visão de longo prazo.

Citando o Professor Jacobides: “Innovation is not about the creative genius of a solitary inventor; it’s about new ways of orchestrating and managing the benefits we can create. And that will transcend the boundaries of traditional sectors.

Votos de boa leitura 🙂