Desafios, Reflexões

Felicidade à prova de bala…

happinessEscrevo este post após quase um ano de silêncio aqui no Mentes Brilhantes. Este blog esteve em silêncio não por não haver nada para dizer, mas sim porque tudo o que aconteceu neste ano não deixou tempo para escrever nem uma linha que fosse.

Este foi de facto um ano absolutamente extraordinário, seja em termos de desafios, seja em termos de peripécias, seja em termos de adversidades, mas também de oportunidades. O ritmo frenético a que tudo acontece chega a ser muitas vezes avassalador, mas duvido que a vida tivesse tanto sabor se não fosse esta enorme correria. Porque é uma correria que se faz com gosto. De outra forma seria bem menos interessante.

E este gosto deriva das nossas realizações e do sentido que atribuímos ao que fazemos. O ser humano tem fome de sentido, tem fome de propósito, tem uma enorme necessidade de ter uma boa razão para se levantar todos os dias de manhã com vontade de fazer coisas. Como diria o admirável Carlos Coelho, CEO da Ivity Brand, todos temos vontade de deixar a nossa marca no mundo… e é verdade, estamos geneticamente fadados para isso 🙂

Começo e termino este post a partir de Luanda, destino que esteve presente no meu roteiro todos os meses deste ano. Terra de oportunidades e de esperança, simboliza uma Angola que se está a reinventar, com uma energia e uma alegria admiráveis, especialmente vindas de um povo que tanto sofreu nos quarenta anos de guerra que viveu. É impressionante ver a alegria e determinação com que aproveitam as virtudes da paz e do desenvolvimento económico, apostando no desenvolvimento e formação dos seus quadros. É um enorme privilégio contribuir para este esforço coletivo.

Escrevo este post dias depois de concluir o meu doutoramento, uma jornada de sete árduos anos de trabalho, esforço, dedicação e enorme elasticidade organizativa. Devo este sucesso a uma enorme quantidade de pessoas (amigos, familiares, colegas) que me apoiaram, que me deram condições muito favoráveis ao estudo e ao desenvolvimento dos trabalhos de investigação, que foram enfim a minha rede de suporte social e pessoal. Foi um verdadeiro trabalho de equipa e marca um dos pontos altos (verdadeiramente inesquecíveis) de 2014!

É curioso ver como as nossas expetativas são influenciadas pelas experiências e expetativas alheias… todos me diziam que as provas públicas de doutoramento, pela sua importância e solenidade, eram um momento de enorme tensão, de enorme pressão, até de sofrimento! Pois bem, graças aos meus providenciais orientadores, esse momento inesquecível foi acima de tudo um momento de alegria e enorme fruição intelectual, cuja recordação gratificante eu guardo, praticamente de todos os imensos minutos ao longo dessas mais de duas horas de épicas provas!

Por toda a experiência, paciência, sabedoria, confiança e amizade, o meu imenso obrigado à Adelinda e ao Nuno. Não poderia ter tido melhores orientadores e mentores. Espero ter-vos daqui para a frente como parceiros e patrocinadores de investigação. Como disse na defesa da minha tese, mal posso esperar para prosseguir nesta apaixonante auto-estrada do conhecimento científico .-)

Mas se 2014 foi profícuo em marcos significativos de realização positiva e com significado, foi também campo fértil para enormes deceções. E quando falo em deceções não falo em infortúnios. falo efetivamente em pessoas que nos desiludem completamente, que nos mostram como nos podemos enganar em absoluto relativamente aos valores e natureza moral de indivíduos com quem privamos, com quem nos relacionamos numa base regular ou numa base de enorme intensidade de partilha e/ou esforço conjunto.

Estou por isso a falar de deceção no sentido “telúrico” do termo. Aquele tipo de deceção que nos faz questionar a nossa capacidade de fazer juízos críticos, apreciações e valorações sobre os outros, tal foi a escala do engano em que nos deixámos cair. Estou a falar daquele tipo de deceção que nos faz sentir pequenos e irrelevantes, que nos faz sentir agoniados e mesmo com a sensação de que sofremos um enorme, imenso e implacável soco nos estômago, daquele que nos tira o ar. Conhecem a sensação? Pois é… não é nada agradável!

Ora bem, em 2014 esta sensação foi-me familiar algumas vezes… 

Curiosamente, a forma como decidi enfrentar esses momentos foi diferente da forma como os enfrentaria no passado. E esta evolução acabou por constituir quase uma surpresa para mim, e foi seguramente uma aprendizagem muito importante.

Há alguns anos atrás este tipo de deceção seria processado por via da raiva e do ressentimento. Teria sido fonte de um tipo de aprendizagem exclusivamente defensiva, num registo do tipo “aqui está o tipo de gente e o tipo de coisa com a qual nunca mais vou ser enganado”. E ficar-me-ia por aí.

Acontece que esta abordagem é curta e pouco saudável. Como todos os estudos sobre felicidade demonstram, a proliferação de sentimentos e emoções negativas enfraquece o nosso sistema imunitário, logo reduz potencialmente a nossa saúde e os anos de vida que nos restam. Por outro lado, a proliferação de sentimentos de raiva reduz fortemente o nosso potencial cerebral, o que limita o nosso discernimento e a nossa capacidade de aprendizagem. Sobre estes aspetos, já escrevi nos meus posts Gestão da Felicidade, Como (não) agatalhar a malta… e A Mente que nos Move.

Por isso mesmo, decidi lidar com estas deceções e com as pessoas que me dececionaram de forma diferente. Decidi que o foco seria no meu processo de crescimento e nas aprendizagens que poderia retirar daí. Perante as situações de deceção, habituei-me a uma disciplina férrea de reflexão e autocrítica que obedece ao princípio de responder (sempre) às seguintes questões:

  • o que podes aprender com esta situação?
  • o que podes fazer melhor no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves evitar fazer no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves continuar a fazer no futuro, mesmo com o risco de te voltares a dececionar?
  • que sentido podes atribuir a estes acontecimentos?
  • o que vais mudar desde já na tua atitude e nos teus comportamentos?
  • a quem deves agradecer no fim?

Este processo de autocrítica e reflexão tornou-se uma ferramenta essencial de resiliência e desenvolvimento para mim ao longo deste ano. Não só porque me ajudou a focar nos ganhos em vez de pensar nas perdas, mas também porque me ajudou a perceber as perdas como uma parte do meu processo de crescimento como ser humano.

Das diversas dimensões da perda, a mais dolorosa é certamente a perda de pessoas. Neste tipo de situação, a perda corporiza-se desde logo na imediata desvinculação com a pessoa que nos dececionou. Curiosamente, alimentar uma torrente de sentimentos negativos e de ressentimento relativamente a essas pessoas é uma forma de manter a ligação, o vínculo a essas mesmas pessoas, só que de forma negativa. É uma forma de não as deixar partir da nossa vida, num ato de (muitas vezes) involuntária saudade de tempos que não voltarão. E é acima de tudo uma forma muito pouco saudável de gerir expetativas, emoções e relações.

Se não nos libertarmos dos sentimentos negativos eles irão impedir-nos de progredir, de aprender,  mantendo-nos presos numa armadilha auto-induzida que nos desfoca do que é verdadeiramente importante. Andar ressentido é caminho certo para uma espiral de improdutividade e irrelevância. Acreditem, eu já o experimentei 🙂

Por isto mesmo, a última pergunta da lista assume uma crucial importância, pois aquilo que eu aprendi com estas deceções foi que o melhor processo de superação e de cura para estas situações é precisamente conseguir estar grato a quem nos dececionou. Porquê? Porque aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, como diz o ditado 🙂

Quando conseguimos aprender com base nas adversidades, tornando a deceção um degrau do nosso crescimento, perdoar a quem nos dececionou faz parte de um processo de regeneração emocional absolutamente essencial para sermos mais resilientes, para passarmos a ser portadores daquilo a que eu chamo uma “felicidade à prova de bala”.

É, no limite, a melhor forma de deixar partir da nossa vida aqueles que nos dececionaram.

Tal como a melhor recompensa está na dádiva, a melhor cura passa pelo perdão e pela prática da gratidão. E não é lamechice nem frase da moda: a ciência prova que isto é mesmo verdade…

… vamos experimentar?

Deixo-vos com um fabuloso vídeo da SoulPankake, que nos fala precisamente do poder da gratidão. Enjoy it 😉 … e façam o favor de ser felizes 🙂

Eventos, Factos, Reflexões

Angola com saudade

De Saurimo até Catoca…

Após uma semana de intenso trabalho em Angola, estou prestes a regressar a Lisboa.

Como referi no meu post anterior, desta vez a experiência levou-me até ao extremo nordeste do país, no planalto da Lunda. Na Sociedade Mineira da Catoca, tive o desafio de colaborar com uma equipa dirigente dinâmica e multifacetada, que retrata o mosaico inter-cultural que compõe o capital humano deste potentado diamantífero.

Terminei o meu último post dizendo que iria tomar contacto com a fibra desta equipa… pois bem, confirmaram-se as minhas melhores expectativas! Encontrei uma equipa de gente boa, calorosa e boa anfitriã, que me fez sentir em casa desde os primeiros minutos.

Encontrei também uma equipa de gente empenhada, preocupada com o futuro da sua organização e do seu país, com orgulho no contributo que todos os dias dão para ambos.

Trabalhei com um grupo de pessoas muito diversificado nas suas origens: brasileiros, angolanos, portugueses e até russos! No caso destes últimos, nem a barreira linguística foi obstáculo a um trabalho fortemente profissional e produtivo!

Vista do apartamento
Complexo de Catoca: vista do meu alojamento

A diversidade também se verificou nas áreas de conhecimento com que contactei: geologia, engenharia, gestão, economia, biologia, etc. Todos dos melhores do mundo nas suas áreas de especialidade, mas sempre com uma vontade de aprender enorme! Espero ter podido ajudá-los com o meu contributo. Eu de certeza aprendi muito com eles 🙂

 Regresso assim a Lisboa cansado mas com uma agradável sensação de missão cumprida. Mais uma viagem a Angola que se torna numa boa história para contar. Outras se seguirão certamente!

Deixo-vos um vídeo institucional sobre a Sociedade Mineira de Catoca, que vos dará uma ideia daquilo que aqui encontrei. Enjoy it! 😉

Desafios, Factos, Reflexões

Angola profunda

Planalto da Lunda
Instantâneo tirado a caminho da Catoca

Escrevo este post no planalto da Lunda, mais concretamente no complexo da Sociedade Mineira da Catoca, uma diamantífera próxima da localidade de Saurimo, perto da fronteira nordeste de Angola.

Chegar cá foi uma verdadeira jornada, num total de nove horas de avião, três escalas e muito espírito aventureiro à mistura com alegria e boa disposição, tão típicos deste grande povo angolano, que tão bem me recebe sempre que venho cá em missão!
Esta é a primeira vez que venho a Angola e saio do perímetro metropolitano de Luanda. Apesar de continuar a viajar em missão de trabalho, esta viagem ajudou-me a ver um pouco da Angola profunda, que não se vê em Luanda.
Quem conhece Luanda sabe que é uma imensa metrópole, sobrepopulada, que alia à sua beleza típica da zona histórica e da baía o preço da centralidade: tráfego infernal, grande agitação, a par com um ritmo de desenvolvimento avassalador.
Saindo de Luanda, continuamos a observar uma nação com uma dinâmica de crescimento impressionante, mas ajustada a um ritmo de vida mais tranquilo, apesar de alegre e animado.
Pude observar grandes extensões de paisagem natural de imensa beleza, tive um vislumbre de pequenas aldeolas feitas de cubatas tradicionais, vi crianças a brincar alegremente ao ar livre, mas também vi (muitas) mulheres a lavar roupa num riacho, fruto de um desenvolvimento que ainda tem muito para dar às populações do interior.
Conheci Saurimo, uma pequena cidade, bonita e bem conservada, exemplo de como se pode ter um estilo de vida mais pacato sem que isso signifique menos desenvolvimento. E estou presentemente a conhecer um potentado da indústria mineira, fruto de um consórcio entre quatro grandes empresas multinacionais, de origens tão diversas como Angola, Rússia ou Brasil.
É impressionante constatar como uma unidade industrial que não se limita a explorar o seu negócio se pode tornar um motor de desenvolvimento para uma região inteira. A Catoca, para além de dar emprego à população local, tem projectos inovadores ao nivel ambiental, nomeadamente no que diz respeito ao tratamento de água, contribuindo para a melhoria do nível de vida da população.
Mas não se fica por aí. Tive oportunidade de ver, a caminho de cá, algumas das diversas escolas primárias construídas e oferecidas pela Catoca às localidades circundantes, contribuindo assim para a formação de mais de 2000 crianças na região.
Notável é também o esforço e o investimento colocado na formação e qualificação dos seus quadros, razão aliás que me trouxe a este fantástico ponto do mundo. Nos próximos dias irei ter oportunidade de conhecer melhor a fibra desta gente notável que, aqui no meio do planalto da Lunda, constrói o futuro todos os dias. Estou certo que vai ser emocionante 😉
Factos, Recomendações

Angola revisitada

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Estive em Fevereiro passado de novo em Angola, numa missão relâmpago (48 horas) ao serviço da Presidência da República.
Para além do trabalho que lá me levou, pouco mais tempo tive para mim… Apenas o suficiente para um jantar descontraído com grandes amigos que lá estão também em missão, mas no caso deles de longa duração 🙂
Fomos jantar a um local já mítico entre os conhecedores de Luanda: alguns chamam-lhe Dona Elsa (em homenagem àquela que era a antiga dona e autora das diversas iguarias que ali podemos comer), enquanto que outros lhe chamam simplesmente «Naquele Lugar».
Situado discretamente num dos extremos da baía de Luanda, no bairro circundante da famosa Fortaleza, para lá chegarmos temos de passar um pacato controlo militar, pelo que convém irmos acompanhados de um frequentador habitual.
Lá chegados, espera-nos um ambiente agradável e descontraído, o melhor bife de pimenta do mundo e as inesquecíveis «cucas» geladinhas 🙂 recomendo vivamente!!!
Para além da excelente experiência convivial e do intenso trabalho, encontrei uma Luanda que continua com uma grande dinâmica económica e social, visível não só pelo crescimento e melhoria das infra-estruturas, como também pela cada vez mais significativa renovação dos quadros angolanos, mais qualificados e exigentes. Só espero que o contributo dos expatriados continue a ser apreciado…
Continua assim a ser um destino que recomendo, e ao qual espero regressar em breve 😉

Eventos, Factos, Trends

Mentes Brilhantes em Luanda

luandaO Mentes Brilhantes mudou-se temporariamente para a fantástica cidade de Luanda. Com grande pena minha, é só até ao final da semana.

É sempre um prazer voltar a esta metrópole quente e cosmopolita, onde a actividade é fervilhante e o progresso um espectáculo em todo o seu esplendor.

Esperava ver sinais de abrandamento económico, tendo em conta a baixa do preço do petróleo e os sinais dados pelo governo de Angola para haver contenção… todavia tal ainda não se verifica no pulsar da cidade, que continua pujante de actividade económica.

De facto, desde Novembro passado, altura em que cá estive, não se notam grandes diferenças, a não ser no crescimento das infraestruturas (estradas, habitação, tecnologia, turismo, equipamwntos de saúde e lazer, etc.), a par com a natural evolução social de um país em franco crescimento e em plena aprendizagem do que significa prosperar em paz.

O tema do momento hoje foi a entrada em vigor do novo Código da Estrada, que obriga ao uso de cintos de segurança nos lugares traseiros dos veículos. Tal verifica-se francamente complicado num parque automóvel em que grande percentagem dos veículos não tem os ditos cintos de série…

Começo amanhã uma longa jornada de formação a quadros de uma construtora fortemente implantada na região, naquela que é a terceira contribuição que dou ao desenvolvimento deste país que tão bem me acolheu. Espero voltar mais  vezes este ano, pois o ambiente que se vive aqui é bem mais entusiasmante e optimista que aquele que se vive na velha Europa 🙂

Isso de resto pode-se confirmar pelo afluxo de expatriados a Luanda. No meu vôo falava-se mais de dez línguas diferentes, e o número de angolanos é cada vez menos expressivo nestes vôos. Segundo os últimos números divulgados, há mais de 100.000 portugueses em Angola e só o ano passado foram emitidos mais de 80.000 vistos pelo Consulado angolano em Lisboa. Basta ler a edição deste mês da Exame para percebermos o destaque dado a Angola, para onde têm migrado aliás as principais consultoras.

Luanda é hoje assim um destino económico incontornável, sinal dos tempos em que vivemos. Por isso mesmo, um dos temas que cada vez mais se coloca às empresas portuguesas é se estão devidamente preparadas para a sua inevitável internacionalização, e se dão a devida preparação e acolhimento aos seus expatriados. Mas sobre esse tema escreverei em post posterior.

Abraços e até breve!