Reflexões

Felicidade e Postura Vivencial

O emergir de uma ideia

Hoje, ao refletir sobre a história de vida de uma pessoa que me é próxima, ocorreu-me uma ideia que deu origem a um conceito que ainda não tinha operacionalizado, apesar de trabalhar com ele há já vários anos em executive e life coaching: o conceito de postura vivencial.

De facto, ao longo de muitos anos de aconselhamento e coaching aos mais variados tipos de indivíduos, acabei por me confrontar com padrões de atitude face à vida que posso hoje sistematizar numa framework tipológica que nos ajuda a compreender como o nosso software mental se organiza face a um par de variáveis muito relevantes para a nossa felicidade.

Essas variáveis são o locus de controle e a autenticidade. Deixem-me explicar sinteticamente no que cada um deles consiste.

postura vivencial em esquema

O locus de controle diz fundamentalmente respeito à forma como vemos aquilo que nos acontece e os respetivos nexos de causalidade. Quem tende a ter um locus de controle externo tende a explicar os factos que determinam o curso da sua vida através essencialmente de agentes externos e não da sua vontade, o que leva a uma postura passiva face à gestão da sua própria vida, da sua carreira e até das suas relações, afetos e do seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Este tipo de pessoas usam geralmente uma narrativa que recorre ao verbo condicional e a muitas referências externas do tipo “se me saísse o Totoloto”, “se eu tivesse tido sorte na vida”, “se o País tivesse um Governo competente”, em que as causas de tudo estão sempre fora do seu controlo.

Quem tende a ter um locus de controle interno tende a explicar os factos que impactam no curso da sua vida essencialmente através da sua vontade e não de nenhuma entidade externa, que leva a uma maior proatividade face à sua gestão de vida, o seu desenvolvimento de carreira e mais uma vez dos afetos e das aprendizagens. As pessoas que se enquadram nesta tipologia usam geralmente um discurso que recorre aos verbos de ação e a muitas referências na primeira pessoa do singular do tipo “como fiz isto, consegui aquilo”, “tenho de aprender isto para alcançar aquilo” ou “isto é o que temos de fazer para alcançarmos esta meta”, em que as consequências derivadas dos acontecimentos da vida estão dependentes do que estejam dispostas a fazer por elas.

Sobre esta tendência tipológica e seus antecedentes culturais já escrevi em 2008 no meu artigo “A Pesada Herança de Roma”.

Já a autenticidade tem um enquadramento menos estruturado pelos seus antecedentes teóricos ou conceptuais, e é produto da minha reflexão pessoal. Para ter uma mínima base de fundamentação (teimosia de investigador!), procurei sustentar o meu conceito em algum tipo de fonte. Ao fim de 3 breves minutos de pesquisa na net, encontrei um pequeno post do blog Psichology Today, sob o título “Does Authenticity Lead to Happiness?”, que me deu algum conforto: afinal o conceito que eu desenvolvi parece fazer algum sentido 🙂

A autenticidade tem a ver com autoconhecimento, com a maturidade necessária para sabermos aquilo a que aspiramos, aquilo que verdadeiramente nos motiva e desejamos, e com a coragem de o assumir e ter uma vida coerente e consequente com essas aspirações. Falo de coragem porque nem sempre tal é fácil de descobrir e muitas, mas mesmo muuuitas vezes é extremamente difícil de praticar. Um dos principais fatores de constrangimento são as convenções sociais e as expetativas dos que nos são próximos. Quantas e quantas vezes damos por nós a viver não a nossa vida mas sim a vida que os nossos pais quiseram que nós vivêssemos… e tal acontece na maioria dos casos sem que ninguém se aperceba ou deseje conscientemente essa imposição. Na maioria das situações que conheci, essa imposição foi aliás auto induzida. Pois é… a nossa mente prega-nos partidas.

Mas a desejabilidade social não acontece só através dos pais, que são as figuras parentais clássicas. As expetativas de professores, amigos, colegas, chefes, patrões, entre tantos outros levam a que muitas vezes escolhamos profissões que não nos realizam, estilos de vida que não nos preenchem, modelos de relacionamento familiar que nada nos dizem ou afetos que se revelaram um entusiasmo juvenil. Um exemplo do qual nunca me esqueço foi o de uma antiga aluna minha de licenciatura que se apresentou na minha primeira aula dizendo “Eu estou aqui porque o meu pai me obrigou a tirar o curso de Gestão. Assim que acabar e tiver dinheiro, vou tirar o curso de piloto de aviões, que é aquilo que verdadeiramente me apaixona!” Elucidativo, não?

Ora bem, ao cruzarmos estes dois tipos de variáveis tipológicas, encontramos quatro perfis possíveis de postura vivencial, ou seja, da forma como tendemos a encarar e a viver a nossa vida, ou seja, de fazer a nossa jornada por este mundo.

Os 4 perfis

Por um lado temos o Senador, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece não depende de si e a ter um baixo grau de autoconsciência. Como não assume o que verdadeiramente quer (muitas vezes nem tem isso claro para si), tende a estar permanentemente insatisfeito, apesar de achar que fez tudo certo. Por isso mesmo, culpa o contexto e os outros de todos os males, de todos os azares e infortúnios, tendendo a olhar para a vida pelo lado do copo meio vazio. Tende a ser uma pessoa amarga e que se leva demasiado a sério, tendendo para o conflito e para desenvolver relações baseadas em emoções negativas. Tal como um “senador” (passe o estereótipo), assume uma postura de sobranceria perante os outros. Estas são pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade baixo (sobre este conceito, da autoria da Barbara Fredrikson, ver o meu post “Gestão da Felicidade”).

Por outro lado temos o Poeta, ou seja, alguém que mais uma vez tende a achar que o que lhe acontece não depende de si, mas, ao contrário do Senador, tem um alto grau de autoconsciência. Como sabe o que verdadeiramente quer (mas muitas vezes não tem a capacidade de tomar a iniciativa para lá chegar), tende a estar permanentemente insatisfeito, revisitando sem parar o que seria a sua vida se tivesse tomado a iniciativa de mudar o curso dos acontecimentos. Por isso mesmo, culpa o contexto e os outros de todos os motivos que o impediram de tomar boas decisões, e, tal como o estereótipo do “poeta”, desenvolvendo uma atitude melancólica face à vida que gostaria de ter ou de ter tido, tendendo a olhar para a vida mais uma vez pelo lado do copo meio vazio. Os poetas tendem a ser pessoas tristes e que têm baixa autoestima, tendendo para a submissão ou para o evitamento do conflito, desenvolvendo relações desequilibradas, plenas de frustração e baseadas em emoções negativas. São também elas pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade baixo, exceto se tiverem a sorte de lhes calhar uma vida de feição com as suas aspirações, apesar de não terem feito nada por isso.

Do lado do locus de controle interno temos primeiramente o Gladiador, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece depende acima de tudo de si, mas, ao contrário do Poeta, tem um baixo grau de autoconsciência. Como não sabe o que verdadeiramente quer (ou sabe, mas não tem a coragem de o assumir), tende a estar permanentemente insatisfeito, lutando sem parar para mudar o curso dos acontecimentos. Por isso mesmo, culpa-se a si próprio por não ser feliz, acreditando que se continuar a lutar vai lá chegar (mesmo que não seja claro como). Muitas vezes o Gladiador consegue compensar de alguma forma a sua frustração com a dimensão da sua vida que não o realiza, tendendo a brilhar e a realizar-se noutras dimensões. Um exemplo típico é alguém que se realiza e pleno em termos profissionais e cívicos, como forma de compensar uma vida pouco ou nada realizada ao nível dos afetos. O exemplo oposto também se mostra muito frequente, pela minha experiência profissional. Um gladiador, sendo um lutador, tende a olhar para a vida pelo lado do copo meio cheio, mesmo quando há adversidades, procurando a felicidade através da conquista de novos ganhos e ignorando o mais possível as perdas. Os gladiadores tendem a ser pessoas alegres e extrovertidas, com enorme orgulho e alta autoestima, tendendo para a afirmação persuasiva ou mesmo para a afirmação territorial, não temendo o conflito. Desenvolvem relações desequilibradas, plenas de altos e baixos emocionais. São pessoas que tenderão a ter um rácio de felicidade alto, se bem que com dificuldade em manter esse rácio de forma consistente.

Por fim temos a postura vivencial do Herói, ou seja, alguém que tende a achar que o que lhe acontece depende também de si, mas, ao contrário do Gladiador, tem um alto grau de autoconsciência e uma enorme coragem, inclusive para assumir as suas fraquezas, defeitos e contradições. Sabe o que verdadeiramente quer (e tem a coragem de o assumir), pelo que tende a estar permanentemente em paz consigo próprio, mesmo quando segue o caminho menos convencional ou mais difícil para mudar o curso dos acontecimentos de forma a levar uma vida mais autêntica. Por isso mesmo, assume a dor e as potenciais perdas que as suas decisões podem implicar como sendo o preço para ser feliz, acreditando que se continuar pela trilha certa vai atingir a realização plena (mesmo que não seja evidente durante as agruras da caminhada). Muitas vezes o herói consegue compensar de alguma forma o potencial escrutínio social através da sua sensação de plena realização, de coerência e de gratidão pela caminhada que tem a sorte de fazer, com as suas dificuldades e fraquezas, mas também com a ajuda de muitos. O herói tem a coragem de assumir que não sabe tudo, logo é o mais eficaz dos aprendizes, tendo noção plena do seu auto desenvolvimento e sabendo lidar bem com as suas limitações. Um herói, sendo um otimista corajoso, tende a olhar para a vida pelo lado do copo meio cheio, mesmo quando há rejeição ou adversidades, vivendo a felicidade através da fruição dos mais pequenos ganhos e desvalorizando as perdas, ou, em muitos casos, aprendendo a perceber (olhando em retrospetiva) os ganhos de longo prazo que estão escondidos em perdas de curto prazo. Os heróis são atribuidores de sentido por excelência, e tendem a ser pessoas alegres e serenas, com forte e sadia autoestima, temperada pela sabedoria. Tendem para uma afirmação cooperativa, sendo contagiantemente entusiásticas. Tendem a desenvolver relações equilibradas, tendo boas hipóteses de desenvolver um rácio de felicidade alto e consistente.

Apesar de não ter evidência empírica que o confirme nem instrumentos que o meçam, a minha experiência profissional e pessoal sugere-me que, muito provavelmente, tenderão a existir entre nós mais Poetas e Senadores que Gladiadores e Heróis… Acredito porém que a Postura Vivencial, apesar de ser uma tendência, também pode ser uma opção consciente, que pode ser cultivada. Espero poder desenvolver melhor estes conceitos no futuro, e investigá-los adequadamente. Afinal, levaram-me a escrever compulsivamente este post até às tantas da madrugada 🙂

Deixo-vos com uma referência ao site da Penn University sobre Authentic Happiness, bem como com um vídeo muito interessante do famoso investigador Martin Seligman, sobre o seu livro “Authentic Happiness”. Enjoy it! 😉

Factos, Reflexões, Trends

Portugal continua a ser irrevogavelmente cool, pá!

ng3492544Não resisti a escrever este post após um frenético fim de semana recheado de notícias bombásticas que começaram ainda durante o meu regresso de Angola. Por momentos senti que estava a voltar para um país que não era aquele pelo qual estou apaixonado há mais de quatro décadas…

Na verdade, desde o Verão que temos sido confrontados com todo o tipo de notícias sobre uma espécie de lado lunar de Portugal, associado a um tipo de conduta que repudiamos da qual apenas vislumbrávamos a ponta do icebergue. Nos últimos meses o icebergue mostrou-se de forma crua, mostrando uma faceta da realidade que nos incomoda, percorrendo transversalmente o setor público e privado.

Apesar de doloroso, prefiro um país onde se enfrentam estes “demónios” frontalmente, e faço votos para que a Justiça funcione de forma desassombrada, imparcial e implacável. Mas o que me recuso é a reduzir o nosso país a estes factos, a esta faceta menos positiva. Apesar de tudo o que se vai passando neste cantinho à beira mar plantado, a verdade é que Portugal continua a ser a casa de gente de enorme mérito e de enorme qualidade, que realiza feitos memoráveis e que, todos os dias, se atreve a fazer a diferença. Mas sobre isso fala-se pouco.

Por isso mesmo decidi aqui falar um pouco do lado de Portugal que me apaixona. Um Portugal que continua a ser irrevogavelmente cool 🙂

Apesar da crise e da Troika, Portugal continua a ter polos de excelência e de enorme desenvolvimento e notoriedade. Sabiam que em 2014 Portugal conquistou 15 prémios no World Travel Award? Pois é, o turismo e a hotelaria portugueses estão no top of mind mundial, apesar de todas as dificuldades. E isto graças a milhares de heróis anónimos que vão fazendo do nosso país um lugar onde apetece voltar muitas e muitas vezes 😉

Mas não só de turismo se faz este país. Sabem por exemplo que, este ano, três dos quatro melhores vinhos do mundo são portugueses, segundo a Wine Spectator? Para um país com a nossa dimensão isto é verdadeiramente notável, e ilustra a verdadeira revolução que o setor vinícola português sofreu na última década. Hoje produzimos do melhor que se faz no mundo, e o resto do mundo sabe-o 🙂 Faz-nos bem recordar…

2014-11-21 21.32.53Sabem que em 2014 Portugal ganhou mais duas distinções nos Óscares da gastronomia, tendo já 14 restaurantes no Guia Michelin? Isto para não falar dos excelentes chefs que têm expandido o seu talento à escala global. Exemplo vivo disso foi a fantástica refeição que fiz a semana passada no fabuloso Kitanda da Esquina, em Luanda, do chef Vítor Sobral, um verdadeiro exemplo de talento português à escala intercontinental!

Mas Portugal também se faz de protagonistas meritórios, mais ou menos mediáticos. Foi em 2014 que Carlos do Carmo recebeu o Grammy Latino de Carreira, premiando um percurso artístico de notável qualidade e projeção. Foi também este ano que Cristiano Ronaldo recebeu a Bota de Ouro pela terceira vez, feito particularmente notável para um atleta tão jovem mas com um talento à escala global, que é hoje o mais universal cartão de visita do país. E foi também em 2014 que uma equipa de bombeiros lusos se afirmou entre as melhores do mundo, num exemplo de que os heróis portugueses são muitas vezes gente anónima, simples gente deste povo tão valoroso 🙂

Mas 2014 não se ficou por aqui… também na ciência damos cartas. Alcino J. Silva, nome incontornável da investigação molecular, venceu o Best Leader Awards EUA 2014 na categoria de Award Applied Science and Technology e Ana Júlia Cavaleiro, investigadora portuguesa, foi premiada pela NASA. Notável, não acham?

Por fim, três exemplos de excelência em domínios distintos: a arquiteta Inês Lobo venceu este ano o prémio internacional ArVision – Women and Architecture, mostrando que a arquitetura portuguesa, que já conta com dois prémios Pritzker, continua a dar cartas. Também a portuguesa Marta Rodrigues Cordeiro e Cunha foi eleita a melhor aluna de MBA do mundo, o que mais uma vez é notável se considerarmos o quão minúsculos somos do ponto de vista territorial!

E por fim, por falar em dar novos mundos ao mundo, não queria deixar de destacar a minha Católica Lisbon School of Business & Economics, que se encontra entre as 50 melhores business schools do mundo e entre as 25 melhores da Europa, atraindo para Portugal um vasto leque de professores e alunos internacionais. Dá orgulho pertencer a esta equipa…

É este Portugal que eu amo, é deste Portugal que eu me lembro todos os dias… apesar do resto 😉

Deixo-vos um pequeno vídeo que ilustra este conceito de proudly portuguese. Enjoy it! 🙂

Recomendações, Reflexões

A felicidade é uma consequência, não um fim em si mesmo!

Escrevo este post a propósito de uma magistral TED Talk que tive o privilégio de ver, dada pela escritora Jennifer Senior, intitulada “Para os pais, a felicidade é uma fasquia muito alta“.

Nesta palestra, a escritora começa de forma provocatória por referir como constatou que a secção para pais nas livrarias é esmagadora — é “um monumento gigantesco, com cores de rebuçados, ao nosso pânico coletivo”. Não poderia deixar de concordar mais com ela. Basta dar um pulo à FNAC e constatar: se para sermos bons pais tivéssemos de ler todos os livros de autoajuda que por lá proliferam, teríamos de dar a tarefa por concluída por alturas do momento em que, provavelmente, já seríamos avós 🙂

Esta evidência resulta de uma enorme ansiedade que os pais atuais vivem relativamente ao papel que assumem enquanto responsáveis pela educação e pelo destino dessas pequenas criaturas por nós trazidas ao mundo: os filhos.

Esta ansiedade resulta de uma conceção socialmente consensualizada sobre o que é ser um pai de sucesso na sociedade ocidental. Essa ideia socialmente construída e tacitamente aceite pela maioria é tão perfeita e liofilizada que a expetativa de falhar nesse propósito é fortemente gerador de ansiedade. E porque é que os pais estão tão cheios de ansiedade? Porque o objetivo dos pais consiste em criar crianças felizes.

Qual o mal disso? – perguntam vocês… De facto, qualquer pai deseja que os seus filhos sejam felizes. Faz sentido e é meritório e altruísta. Acontece simplesmente que não é realista (já veremos porquê) 🙂 Acresce ao irrealismo deste objetivo um sentimento de culpa exacerbado por uma geração X que investiu demasiado tempo no sucesso profissional e muito pouco tempo na dimensão pessoal da sua própria felicidade. Esta geração de potenciais workaholics sente culpa por não passar tanto tempo com os filhos, e por estar sem energia nem paciência para eles quando chega do trabalho. Se aliarmos a isto a tendência de compensar este défice surfando na onda consumista em que vivemos, leva a que muitas vezes acalmemos a nossa consciência com mais um Action Man ou mais uma PSP que lhes oferecemos. Para logo a seguir nos sentirmos ainda mais culpados por termos “comprado créditos” desta forma 🙂 Eu sei… é de loucos!

Ora bem, o que Jennifer Senior diz com enorme sabedoria é que devemos baixar um pouco as nossas expetativas: a nossa missão como pais não é fazer os nossos filhos felizes, mas sim proporcionar-lhes uma boa educação, fortes e sólidos valores, e doses massivas de afeto e confiança. E isto já é tarefa de enorme magnitude, convenhamos!

O raciocínio da Jennifer faz todo o sentido: querermos criar filhos felizes coloca em nós uma carga de responsabilidade que está para lá das nossas possibilidades, uma vez que a felicidade não é um fim em si mesmo, mas sim uma consequência natural de uma vida vivida e praticada de forma virtuosa e de uma cabeça com as prioridades bem arrumadas. O princípio essencial resume-se pois a isto: se vivermos de forma virtuosa, de acordo com os nossos princípios e valores, e dando significado aos nossos atos, tenderemos a ser pessoas felizes. Et voilá… simples, não?

Por isso, pais de todo o Mundo: deixemos de tentar viver a vida dos nossos filhos por eles. Viver é aprender com as coisas boas e más, é aprender a lidar com a frustração e com o trabalho árduo, com o orgulho das realizações e com a amargura das deceções. Cabe-nos estar lá para orientar, para apoiar, mas deixando sempre que cada um faça a sua própria caminhada 🙂 Afinal, foi assim que os nossos pais fizeram connosco, certo?

Sobre gerações e suas especificidades, deixo-vos três posts muito interessantes:

1. Épocas e gerações: haverá uma especificidade portuguesa?

2. Generation Me

3. Talento e mudança geracional

Não deixem de espreitar a TED Talk da Jennifer Senior e, já agora, também este vídeo sobre o que podemos aprender com as crianças… Enjoy it! 😉

Desafios, Reflexões

Felicidade à prova de bala…

happinessEscrevo este post após quase um ano de silêncio aqui no Mentes Brilhantes. Este blog esteve em silêncio não por não haver nada para dizer, mas sim porque tudo o que aconteceu neste ano não deixou tempo para escrever nem uma linha que fosse.

Este foi de facto um ano absolutamente extraordinário, seja em termos de desafios, seja em termos de peripécias, seja em termos de adversidades, mas também de oportunidades. O ritmo frenético a que tudo acontece chega a ser muitas vezes avassalador, mas duvido que a vida tivesse tanto sabor se não fosse esta enorme correria. Porque é uma correria que se faz com gosto. De outra forma seria bem menos interessante.

E este gosto deriva das nossas realizações e do sentido que atribuímos ao que fazemos. O ser humano tem fome de sentido, tem fome de propósito, tem uma enorme necessidade de ter uma boa razão para se levantar todos os dias de manhã com vontade de fazer coisas. Como diria o admirável Carlos Coelho, CEO da Ivity Brand, todos temos vontade de deixar a nossa marca no mundo… e é verdade, estamos geneticamente fadados para isso 🙂

Começo e termino este post a partir de Luanda, destino que esteve presente no meu roteiro todos os meses deste ano. Terra de oportunidades e de esperança, simboliza uma Angola que se está a reinventar, com uma energia e uma alegria admiráveis, especialmente vindas de um povo que tanto sofreu nos quarenta anos de guerra que viveu. É impressionante ver a alegria e determinação com que aproveitam as virtudes da paz e do desenvolvimento económico, apostando no desenvolvimento e formação dos seus quadros. É um enorme privilégio contribuir para este esforço coletivo.

Escrevo este post dias depois de concluir o meu doutoramento, uma jornada de sete árduos anos de trabalho, esforço, dedicação e enorme elasticidade organizativa. Devo este sucesso a uma enorme quantidade de pessoas (amigos, familiares, colegas) que me apoiaram, que me deram condições muito favoráveis ao estudo e ao desenvolvimento dos trabalhos de investigação, que foram enfim a minha rede de suporte social e pessoal. Foi um verdadeiro trabalho de equipa e marca um dos pontos altos (verdadeiramente inesquecíveis) de 2014!

É curioso ver como as nossas expetativas são influenciadas pelas experiências e expetativas alheias… todos me diziam que as provas públicas de doutoramento, pela sua importância e solenidade, eram um momento de enorme tensão, de enorme pressão, até de sofrimento! Pois bem, graças aos meus providenciais orientadores, esse momento inesquecível foi acima de tudo um momento de alegria e enorme fruição intelectual, cuja recordação gratificante eu guardo, praticamente de todos os imensos minutos ao longo dessas mais de duas horas de épicas provas!

Por toda a experiência, paciência, sabedoria, confiança e amizade, o meu imenso obrigado à Adelinda e ao Nuno. Não poderia ter tido melhores orientadores e mentores. Espero ter-vos daqui para a frente como parceiros e patrocinadores de investigação. Como disse na defesa da minha tese, mal posso esperar para prosseguir nesta apaixonante auto-estrada do conhecimento científico .-)

Mas se 2014 foi profícuo em marcos significativos de realização positiva e com significado, foi também campo fértil para enormes deceções. E quando falo em deceções não falo em infortúnios. falo efetivamente em pessoas que nos desiludem completamente, que nos mostram como nos podemos enganar em absoluto relativamente aos valores e natureza moral de indivíduos com quem privamos, com quem nos relacionamos numa base regular ou numa base de enorme intensidade de partilha e/ou esforço conjunto.

Estou por isso a falar de deceção no sentido “telúrico” do termo. Aquele tipo de deceção que nos faz questionar a nossa capacidade de fazer juízos críticos, apreciações e valorações sobre os outros, tal foi a escala do engano em que nos deixámos cair. Estou a falar daquele tipo de deceção que nos faz sentir pequenos e irrelevantes, que nos faz sentir agoniados e mesmo com a sensação de que sofremos um enorme, imenso e implacável soco nos estômago, daquele que nos tira o ar. Conhecem a sensação? Pois é… não é nada agradável!

Ora bem, em 2014 esta sensação foi-me familiar algumas vezes… 

Curiosamente, a forma como decidi enfrentar esses momentos foi diferente da forma como os enfrentaria no passado. E esta evolução acabou por constituir quase uma surpresa para mim, e foi seguramente uma aprendizagem muito importante.

Há alguns anos atrás este tipo de deceção seria processado por via da raiva e do ressentimento. Teria sido fonte de um tipo de aprendizagem exclusivamente defensiva, num registo do tipo “aqui está o tipo de gente e o tipo de coisa com a qual nunca mais vou ser enganado”. E ficar-me-ia por aí.

Acontece que esta abordagem é curta e pouco saudável. Como todos os estudos sobre felicidade demonstram, a proliferação de sentimentos e emoções negativas enfraquece o nosso sistema imunitário, logo reduz potencialmente a nossa saúde e os anos de vida que nos restam. Por outro lado, a proliferação de sentimentos de raiva reduz fortemente o nosso potencial cerebral, o que limita o nosso discernimento e a nossa capacidade de aprendizagem. Sobre estes aspetos, já escrevi nos meus posts Gestão da Felicidade, Como (não) agatalhar a malta… e A Mente que nos Move.

Por isso mesmo, decidi lidar com estas deceções e com as pessoas que me dececionaram de forma diferente. Decidi que o foco seria no meu processo de crescimento e nas aprendizagens que poderia retirar daí. Perante as situações de deceção, habituei-me a uma disciplina férrea de reflexão e autocrítica que obedece ao princípio de responder (sempre) às seguintes questões:

  • o que podes aprender com esta situação?
  • o que podes fazer melhor no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves evitar fazer no futuro para prevenir este tipo de deceção?
  • o que deves continuar a fazer no futuro, mesmo com o risco de te voltares a dececionar?
  • que sentido podes atribuir a estes acontecimentos?
  • o que vais mudar desde já na tua atitude e nos teus comportamentos?
  • a quem deves agradecer no fim?

Este processo de autocrítica e reflexão tornou-se uma ferramenta essencial de resiliência e desenvolvimento para mim ao longo deste ano. Não só porque me ajudou a focar nos ganhos em vez de pensar nas perdas, mas também porque me ajudou a perceber as perdas como uma parte do meu processo de crescimento como ser humano.

Das diversas dimensões da perda, a mais dolorosa é certamente a perda de pessoas. Neste tipo de situação, a perda corporiza-se desde logo na imediata desvinculação com a pessoa que nos dececionou. Curiosamente, alimentar uma torrente de sentimentos negativos e de ressentimento relativamente a essas pessoas é uma forma de manter a ligação, o vínculo a essas mesmas pessoas, só que de forma negativa. É uma forma de não as deixar partir da nossa vida, num ato de (muitas vezes) involuntária saudade de tempos que não voltarão. E é acima de tudo uma forma muito pouco saudável de gerir expetativas, emoções e relações.

Se não nos libertarmos dos sentimentos negativos eles irão impedir-nos de progredir, de aprender,  mantendo-nos presos numa armadilha auto-induzida que nos desfoca do que é verdadeiramente importante. Andar ressentido é caminho certo para uma espiral de improdutividade e irrelevância. Acreditem, eu já o experimentei 🙂

Por isto mesmo, a última pergunta da lista assume uma crucial importância, pois aquilo que eu aprendi com estas deceções foi que o melhor processo de superação e de cura para estas situações é precisamente conseguir estar grato a quem nos dececionou. Porquê? Porque aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, como diz o ditado 🙂

Quando conseguimos aprender com base nas adversidades, tornando a deceção um degrau do nosso crescimento, perdoar a quem nos dececionou faz parte de um processo de regeneração emocional absolutamente essencial para sermos mais resilientes, para passarmos a ser portadores daquilo a que eu chamo uma “felicidade à prova de bala”.

É, no limite, a melhor forma de deixar partir da nossa vida aqueles que nos dececionaram.

Tal como a melhor recompensa está na dádiva, a melhor cura passa pelo perdão e pela prática da gratidão. E não é lamechice nem frase da moda: a ciência prova que isto é mesmo verdade…

… vamos experimentar?

Deixo-vos com um fabuloso vídeo da SoulPankake, que nos fala precisamente do poder da gratidão. Enjoy it 😉 … e façam o favor de ser felizes 🙂

Recomendações, Reflexões, Trends

A Liderança e a Mentira Auto Induzida

3133347219_4c16658dd5Surge este post da leitura de um artigo brilhante escrito pelo não menos brilhante Miguel Pina e Cunha no Jornal de Negócios, sob o título “Líderes infiltrados – na realidade das suas empresas“.

Neste artigo o Miguel foca algo a que eu chamo a Mentira Auto Induzida, e que mais não é do que o risco de dissonância cognitiva que os líderes sofrem sempre que se isolam e deixam de “andar no terreno”.

A verdade é que quando assumimos funções de liderança a nossa vida muda. Radicalmente e para sempre.

E uma das facetas dessa mudança é o aumento exponencial de solicitações de todo o tipo. Desde o número infindável de reuniões para as quais somos solicitados, para o número imenso de reports de todo o género que temos de produzir, mais as solicitações de colaboradores, superiores hierárquicos, pares, clientes, etc., há para todos os gostos: é só escolher 🙂

Perante esta parafernália de “comedores de tempo”, os líderes tendem a sentir que não têm tempo para fazer coisas aparentemente básicas, como por exemplo falar com as suas pessoas, pensar no desenvolvimento da sua equipa, manter-se a par das expectativas e aspirações dos membros da sua equipa, saber como o trabalho está a correr, apoiar e dar coaching aos colaboradores, etc.

Como há tanto que fazer, é fácil deixar estas coisas para “quando houver tempo”. Pois bem, comecemos pelas más notícias: nunca mais vai haver tempo! Por isso, é melhor ir decidindo começar a fazer estas coisas já! Não tudo de uma vez. Mas um pouco todos os dias.

Porquê? Porque se um líder não fizer isto com regularidade, torna-se a ele mesmo cego e surdo à realidade, por falta de contacto com a mesma.

Por muito que achemos que somos perspicazes e observadores, há sempre imensa coisa a passar-se à nossa volta, factos relevantes para a boa condução da equipa, que serão absolutamente invisíveis para nós, e que nos passarão completamente ao lado, comprometendo a qualidade das nossas decisões sobre a equipa.

Quando damos por nós, corremos o risco de ter uma ideia da equipa que é uma pura idealização, ou seja, não o que a equipa é mas sim aquilo que eu gostaria que fosse. Esta imagem artificialmente criada pelas minhas crenças sobre a equipa e não sobre factos (porque não tive tempo de me cruzar com os mesmos factos) tende a ser uma imagem que me deixa confortável, mas nem sempre corresponde à realidade.

Quando isso acontece, estamos perante uma Mentira Auto Induzida (ou seja, estamos a enganar-nos a nós próprios).

Isto não só prejudica a qualidade das nossas decisões, como mina a nossa autoridade informal, ou seja, o respeito e o compromisso dos nossos liderados, dos membros da nossa equipa, que passam a olhar para nós como alguém que “não está nem aí”, que está desligado da realidade. E quando isso acontece, é muito difícil recuperar a credibilidade…

Como combatemos isso? De duas formas:

  1. Colocando no topo das prioridades o “contacto com as tropas”, arranjando mesmo tempo para, periodicamente, estar com as pessoas da equipa e falar com elas, para lá do convencional “tudo bem?”;
  2. Criando um clima de positividade e abertura, em que as pessoas não tenham medo de nos pedir ajuda, de nos contar as dificuldades ou os problemas que enfrentam e mesmo os erros que cometeram. Se forem os colaboradores a tomar a iniciativa de vir falar connosco, poupam-nos imenso tempo e trabalho. E por isso é tão importante ter tempo para os ouvir…

Estas duas táticas devem ser aplicadas numa base quotidiana, inclusive para combater a Distância Auto Induzida, que é uma maleita que afeta tanta gente de tantas equipas. Esta maleita consiste na crença de que “não podemos dizer tudo o que queremos ao nosso chefe, pois ele pode zangar-se connosco e isso pode ser mau para nós“.

Diz-me a experiência que esta convicção é tão profunda na cultura portuguesa que já incorpora as verdades do senso comum, sendo um dos meus trabalhos diários contrariar esta falsa verdade apriorística que tanta gente tem. Mas isso só se faz dando um exemplo irrepreensível, que liberte as pessoas do medo e da incerteza.

Porque um tipo lá por se ter tornado chefe não deixou de ser o mesmo tipo, com as forças e fraquezas que tinha antes, com as virtudes e defeitos que sempre teve, com as chatices e preocupações da vida doméstica, com filhos, dores de barriga e outras coisas da vida normal. Um chefe não é um tipo que ascendeu a uma espécie de Olimpo dos Chefes, em que passou a ter carta branca para não trabalhar, calçar umas pantufas e fumar uns charutos.

Não, na maioria dos casos passou a ter mais trabalho, mais preocupações e menos tempo. Que só são compensadas quando o exercício da liderança é bem feito, e é sentido como uma vocação e uma missão.

Porque liderar é muito mais dar do que receber. É muito mais servir os outros e não ser servido pelos outros. Assim nunca nos esqueçamos disto…

Deixo-vos com um fantástico vídeo do Stanley McChrisystal, que numa TED Talk nos explica como se lidera ouvindo e ensinando… nas forças armadas!

Enjoy it 😉

Reflexões, Trends

Empowerment: o aditivo do talento

lamp bulb tulipsSurge este post de um desafio que um cliente meu me colocou, ao querer transformar 2014 no ano em que os seus colaboradores se vão começar a transformar em empreendedores.

O tema do empowerment colocou-se assim naturalmente, uma vez que é uma das mais poderosas ferramentas de desenvolvimento do empreendedorismo que se conhecem, com impacto elevadíssimo no brotar dos talentos que temos dentro de nós.

De facto, dar poder, ou empoderar, é algo que nos marca para sempre, pelo tipo de resultados que pode gerar na maioria das situações. É curioso constatar a forma como o empowerment me influenciou ao longo da minha carreira e determinou aquilo que hoje sou, seja enquanto líder, seja enquanto liderado.

Sempre que dei saltos quânticos em termos de carreira e de desenvolvimento pessoal, esses saltos estiveram associados a líderes que acreditaram no meu potencial e me pediram para ir mais além, confiando na minha capacidade de superação. O valor que atribuí a esse crédito de confiança e o poder e energia que a necessidade de retribuir e corresponder às expectativas me impôs, fez com que me superasse continuamente, alcançando resultados que jamais imaginaria possíveis.

Chama-se a isso criar uma profecia auto-induzida, ou seja, demonstrar uma expectativa que está para além do perímetro habitual de competência do outro, que ultrapassa a percepção de capacidade instalada que ele tem. Ao fazê-lo, estamos a puxar para a cima a sua perceopção de capacidade, levando-o a acreditar que vai ser capaz de ir mais longe, e reforçando o seu esforço e comprometimento.

E fazem-no de forma totalmente unbossy! É francamente interessante constatar como os contextos mais produtivos surgem de abordagens de liderança mais centradas na responsabilização que no controlo, mais centradas no ensinar do que na penalização do erro, mais centradas na cooperação e na partilha do que na competição desenfreada.

E é isto que é ser unbossy: não significa ser um porreiraço, significa apenas conquistar os outros com uma pandemia positiva, contagiar a equipa com o nosso entusiasmo, que convive perfeitamente com uma elevada exigência.

Foi isto que fizeram comigo, e é isto que tenho tentado fazer com as minhas equipas. E com resultados verdadeiramente entusiasmantes… o talento brotou muito mais do que imaginei e o risco valeu bem a pena ser corrido!

Porque não tentar? Basta ter a coragem de dar aos outros um pedacinho do nosso poder… vão ver que se espalha como pólen ao vento 😉

Deixo-vos com um vídeo fantástico sobre empowerment e criação de valor. Enjoy it 🙂

Factos, Recomendações, Reflexões, Trends

Portugal faz irrevogavelmente bem – parte 5

shapeimage_1Enquanto continua a nossa silly season, em que Portugal se torna cada vez mais inovadoramente belga, provando-se que o país funciona ainda assim sem governo, eu cá vou continuando a minha demanda por bons exemplos nacionais.

Hoje quero falar-vos do Ricardo Sousa, um jovem extraordinariamente talentoso que, aos 14 anos, criou uma plataforma online de partilha de textos – a Textos & Companhia. Esta plataforma transformou-se num sucesso, com a adesão de mais de 2000 autores, e foi o pontapé de saída para uma caminhada cheia de sucessos.

O Ricardo decidiu aprender a programar sozinho, e três anos depois organizava uma conferência internacional para empreendedores tecnológicos – a SWITCH Conference. Assim, aos 17 anos, estava a gerir um evento com um orçamento de 25.000 euros!

Hoje, com 21 anos, é fundador e CEO da ColorElephant, uma empresa de serviços de marketing e webdesign que trabalha para a BMW e para a Microsoft.

Parabéns Ricardo, por nos inspirares a sonhar com um futuro melhor. Construí-lo depende apenas da nossa vontade…

Deixo-vos com uma intervenção do Ricardo na conferência TEDx Atenas. Um portento! Enjoy it 😉

Reflexões, Trends

Como (não) agatalhar a malta… ou a neurociência ao serviço da liderança!

5192ebea5f5a272753Surge este post de um tema que recorrentemente tenho tratado nas minhas aulas, e que tem sido objecto de contínuo interesse por parte dos executivos com quem tenho trabalhado: o efeito do medo e do stress no nosso potencial cerebral.

De facto, a forma como o nosso software mental funciona é um exemplo fascinante dos nossos mecanismos de autorregulação e do nosso potencial de melhoria em caso de boa gestão das emoções…

Costumo dizer nas minhas aulas que, na verdade, não temos um cérebro, nem dois cérebros… mas sim três cérebros. De facto, o nosso cérebro é constituído por 3 sistemas cerebrais, perfeitamente distintos entre si.

A um nível mais profundo temos o chamado sistema reptiliano, ou cérebro do instinto. É nesta área do cérebro que se encontram as respostas instintivas primárias. É um cérebro “rápido” na sua resposta, precisamente porque garante as nossas reacções primárias de sobrevivência. É nesta área do cérebro que temos guardada a “programação básica” que nos faz fugir se ouvirmos um carro a derrapar quando estamos a atravessar a estrada, por exemplo.

Outro dos sistemas cerebrais é o sistema límbico, ou cérebro da emoção. Se partilhamos o sistema reptiliano com os répteis, este é o sistema cerebral que partilhamos, em conjunto com o sistema anterior, com os mamíferos. Ou seja, qualquer cão ou gato que tenhamos lá em casa tem um cérebro que, grosso modo, equivale ao conjunto dos sistemas reptiliano e límbico. Este sistema é responsável pela nossa memória emocional e é precisamente nesta área que se encontra o início do processo fisiológico do stress.

Por fim, temos o neo-córtex, também conhecido como o cérebro racional. É aqui que se processam as chamadas funções cognitivas superiores, como por exemplo a nossa capacidade de planear, reflectir, o raciocínio lógico-matemático, a escrita, a leitura, a expressão artística, a criatividade.

Um dos aspectos mais interessantes do modo como o nosso cérebro funciona passa pelos seus mecanismos de auto-regulação, que se evidenciam, por exemplo, quando as pessoas referem que, sob stress, se sentiram bloqueados.

Investigação recente mostrou-nos que, quando nos encontramos em situações estimulantes e positivas, as pessoas usam fundamentalmente o neo-córtex e o sistema límbico. Pelo contrário, em situações de stress, em que o que predomina é o medo e a ansiedade, os indivíduos tendem a utilizar apenas os sistemas reptiliano e o límbico.

O que é que isto significa? Significa que, quando entramos em stress, ficamos tão inteligentes quanto um simples cão ou gato, se ele tivesse vivenciado o mesmo tipo de experiências, já que deixamos de ter acesso às zonas do cérebro que nos permitem utilizar a nossa inteligência racional!

Isto sucede porque, em caso de perigo percepcionado, sofremos uma descarga de uma substância chamada cortisol, que corta a comunicação neuronal entre o neo-córtex e o sistema reptiliano. Curiosamente, aquilo que explica porque é que em situação de stress temos o nosso potencial cerebral limitado, é aquilo que ilustra como o mesmo funciona de forma tão perfeita, mesmo nos seus sistemas de auto-regulação.

Na verdade, este mecanismo de regulação bioquímica do cérebro tem por objectivo “libertar” o sistema reptiliano para, em caso de perigo, reagir de forma rápida e eficiente, sem estar a ser “empatado” pelo neo-córtex que, por processar operações complexas, é lento.

Este é um mecanismo muito útil para quando corremos perigo de vida, mas, no mundo complexo em que hoje vivemos, o mecanismo do stress não é só despoletado por situações de perigo físico, mas muitas vezes por situações de perigo percebido, relativo à defesa do estatuto, do prestígio, da carreira profissional, entre outras áreas de valorização individual. Ou seja, quando gritamos com um colaborador, estamos a potenciar este mecanismo…

E a isto eu chamo “agatalhar” o próximo, ou seja, reduzir o nosso interlocutor ao potencial cerebral de um simples gato, por via do medo e do stress que lhe gerámos!

Compreendendo isto, fica claro que, em situações de crise, de nada serve gritar com a equipa ou colocar pressão negativa, uma vez que a única coisa que conseguimos é deitar para fora o nosso próprio stress, a nossa agressividade latente, as nossas frustrações, mas a um preço elevado: “animalizámos” a nossa equipa e apenas conseguimos resultados medíocres obtidos mais rapidamente.

Os líderes de equipa mais experientes sabem que a melhor forma de gerir as suas pessoas, mesmo em momentos de crise, passa por tranquilizar o grupo, encorajá-lo a fazer melhor, demonstrar confiança na capacidade das pessoas e, se necessário, mostrar como se faz e participar nas actividades mais críticas.

Mas para tal é preciso disciplina, pois a tentação é grande…

Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca “agatalhou” alguém 🙂

Deixo-vos com um excelente vídeo do Chris Balsley, em que explica, em 4 brilhantes minutos, o funcionamento do nosso cérebro. Enjoy it!

Desafios, Reflexões

Crónicas de Tempos Impossíveis III

IMG_05442013 vai ser seguramente para muitos de nós um dos anos mais duros e marcantes da nossa vida. Por boas e más razões certamente, porque mesmo num contexto em que se configura uma tempestade perfeita, como aquele que vivemos em Portugal, o que a vida nos ensina é que a mesma é sempre feita de coisas boas e más, mesmo que nós só prestemos atenção a uma das categorias.

Se eu quisesse colocar o chapéu do pessimista, recordar-me-ia certamente do que me custou abandonar um projecto empresarial onde coloquei mais de 4 anos de entusiasmo, esforço e trabalho… sim, sair da Alter Via não foi fácil. Mas foi uma grande lição de vida, pela resiliência que foi necessário ter, pelas competências de gestão e negociação que desenvolvi, pelo orgulho que tenho em não ter esquecido nenhum colaborador nem ter deixado nenhum membro da minha equipa desamparado.

Se eu quisesse colocar o chapéu do nostálgico, lembrar-me-ia do Sebastião, o meu felino lindo, companheiro de mais de uma década, que decidiu deixar-nos em Abril passado e seguir viagem para o paraíso dos felinos, mas que o fez com uma lealdade e amizade inesquecíveis, não querendo deixar de passar os seus últimos instantes nos nossos braços. Mas prefiro recordá-lo e homenageá-lo através das memórias que a mais nova felina lá de casa – a Diana – me desperta, com as suas brincadeiras e arranhadelas constantes.

Se eu quisesse colocar o chapéu do dramático lembrar-me-ia de outros entes queridos, que sofrem mais do que deviam e que persistem em permanecer por cá numa prova de supremo afecto e sacrifício por aqueles que amam. Mas prefiro recordar os momentos, mesmo que breves, em que os vejo sorrir.

Em contrapartida a estes chapéus, eu insisto em colocar o chapéu do optimista e do esperançoso. E por isso dou graças por estar exausto, a meio da mais violenta maratona lectiva que alguma vez tive na Católica Lisbon School, o que me fez recordar algo que eu já sabia: a alegria de partilhar o que sei e de tocar na vida dos outros é algo que me preenche de forma tão poderosa, que me faz transcender tão para lá dos limites corriqueiros, que atribui tanto significado à minha jornada neste mundo, que ser professor jamais será uma actividade opcional na minha vida. Não é negociável, pura e simplesmente 🙂

Como esperançoso militante que sou, prefiro celebrar hoje o pequeno feito de ter ajudado uma amiga a arranjar um emprego, após anos e anos a tentar. Pequeno feito para mim, que gostaria de conseguir ajudar um pouco mais as dezenas de pedidos de ajuda que me chegam todos os dias. Mas prefiro celebrar uma pequena vitória de cada vez. E saber que ela tinha tido ontem o seu primeiro dia de trabalho já me fez valer a pena todo o ano de 2013, apesar de ainda irmos a meio da jornada 🙂

Como optimista crónico que sou, não pude deixar de aceitar este mês o convite que os meus amigos João Paulo e Carlos me fizeram para me juntar a eles numa recente e muito fresca aventura empresarial: a Cranberry.

Apesar de ser um annus horribilis em termos de actividade económica, este é também um momento de oportunidades para quem queira arriscar e acredite no seu valor. Por outro lado, ao visitar o escritório da Cranberry, ainda a cheirar a novo, onde pululam profissionais jovens e menos jovens, oriundos dos mais diversos sectores de actividade, mas todos imbuídos de uma alegria, orgulho, boa-disposição e criatividade imparáveis, o único pensamento que me ocorreu foi: como é possível não integrar esta equipa?

E assim aqui estou, mais uma vez a trilhar novos caminhos, com um gosto imenso por esta enorme aventura que é viver 🙂

Deixo-vos com uma pequena peça de reportagem da TVI24 sobre o livro “GRH de A a Z“, da RH Editora, que tive o enorme privilégio de coordenar em conjunto com o meu grande amigo Augusto Lobato Neves, que lidera uma equipa também igualmente fantástica, que todos os anos marca o mundo dos recursos humanos, com publicações e eventos da maior qualidade. Enjoy it 😉

 

Reflexões

Uma Gestão Positiva não é Mariquice

lincolnOcorreu-me escrever este post ao ler um artigo genial do Rob Kaiser e do Rob Kaplan, publicado nos HBR Blogs, intitulado “Can You Overdo People Skills?“.

Neste artigo, os autores exploram a controvérsia à volta das vantagens e desvantagens de assumirmos uma gestão positiva e orientada para pessoas, dando como exemplo lapidar de liderança o icónico Presidente norte-americano Abraham Lincoln.

Lincoln, um líder incontestável e carismático, que era conhecido pela lealdade incondicional dos seus seguidores, usava um estilo de liderança caloroso, afável, com grande preocupação com a forma como tratava as pessoas.

Este exemplo demonstra, por um lado, como uma gestão positiva e people oriented já dava frutos em pleno século XIX, muito antes do surgimento da escola das relações humanas, uma vez que a forma como o mindware humano funciona é a mesma desde há muito. Assim, mesmo em plena Guerra Civil Americana, a verdade é que os indivíduos seguiam voluntariamente e entusiasticamente quem mais admiravam e respeitavam, e não as pessoas que mais temiam.

Mas há quem argumente que este tipo de gestão é uma abordagem à liderança que “amolece” os líderes, que lhes retira autoridade, que é, no fundo, uma “mariquice” 😦

Este lugar-comum representa infelizmente uma crença profunda, mesmo que não assumida, em muitos gestores, e que resulta basicamente da falta de conhecimento dos fundamentos da psicologia positiva, da neurociência e da liderança. Importa pois ir mais além, passar da mera “erudição de quiosque de revista” para um conhecimento mais profundo dos fundamentos.

Todas as boas práticas de liderança estão intrinsecamente ligadas ao modo como o nosso cérebro funciona, ao seu sistema de recompensas e aprendizagem, ao stress e aos mecanismos motivacionais. E está mais do que provado que gerir pelo medo ou pela coacção limita o potencial cerebral dos indivíduos e reduz drasticamente a sua produtividade.

Para explicar mais em detalhe porque é que a teoria da mariquice não faz sentido, recomendo a leitura do meu post sobre a inteligência emocional na gestão do talento.

Outra coisa completamente diferente, e muito bem explorada no artigo de Kaiser e Kaplan, são os riscos associados a um tipo de liderança caloroso e people-oriented, e aí voltam os paralelismos com o caso de Lincoln.

Os autores destacam dois grandes riscos, que têm de ser prevenidos:

  1. O risco da não-assertividade, por aversão ao conflito. Os líderes positivos e calorosos poderão não ser tão directos com os colaboradores como deveriam ser, originando mal-entendidos, situações de má gestão das expectativas ou de tolerância à incompetência, que não são de todo recomendáveis para uma boa gestão nem para o moral da equipa;
  2. O risco da lentidão, que está intrinsecamente ligado ao primeiro risco: ao entrar numa atitude de evitamento do conflito, corre-se o perigo de entrar numa situação de procrastinação, atrasando decisões importantes mas potencialmente “dolorosas”.

E nesta matéria os autores estão cheios de razão! Estes riscos existem, podem ser evitados, e não desvirtuam de todo aquilo que é a gestão positiva. Como eu costumo dizer, mais vale uma má notícia bem dada (com honestidade e verdade, com firmeza mas empatia) do que uma não-notícia.

Deixo-vos com um vídeo do David Allen sobre stress-free productivity. Enjoy it 😉